terça-feira, 1 de abril de 2014

Os dilemas de uma sociedade em Escudo de Palha


Até onde os princípios éticos e morais devem valer e o pragmatismo deve começar a prevalecer? Existe um ponto em que valores importantes devem ser postos de lado e uma atitude mais lógica deva ser tomada?

Este debate é antigo e recentemente veio à tona apresentado de uma forma extremamente crua e atualizada no filme Escudo de Palha (Wara no tate, 2013), do polêmico diretor japonês Takashi Miike, responsável pelo extremamente violento Ichi, o assassino.

Neste obra, o diretor retrata um problema grandioso exposto em um roteiro muito bem desenvolvido. A história aborda Kyomaru (Tatsuya Fujiwara), um assassino psicopata que estupra e mata crianças. Após violentar e tirar a vida da neta do bilionário Ninagawa (Tsutomu Yamazaki), uma série de anúncios encomendados pelo empresário aparece em diversos meios de comunicação oferecendo um recompensa de um bilhão para quem matar o bandido, não importa de qual maneira. Kyomaru se vê então em uma enrrascada quando as pessoas na rua começam a persegui-lo e sua única opção de sobrevivência é entregar-se à polícia.

Após ele se entregar em uma cidade de interior, uma equipe de policiais é designada para transportá-lo a Tóquio, onde será julgado. O grupo é liderado pelo inquebrantável Kazuki Mekari (Takao Ohsaw), que demonstra desde o início sua disposição em levá-lo à salvo, junto à igualmente fiel Atsuko Shiraiwa (Nanaki Matsushima) e outros três.

O que se tem daí em diante é um verdadeiro declínio de valores sociais quando um grande número de pessoas tenta executar Kyomaru para receber a recompensa. Primeiramente, uma enfermeira tenta envenená-lo. Na saída, um mecânico é preso ao sabotar o avião em que o criminoso seria levado. A alternativa é levá-lo em um comboio por terra, que logo é atacado por um caminhoneiro de forma suicida. Em meio ao caos do acidente, um grupo de policiais que compõe a escolta investe, sendo detido por Mekari. Até o sequestro de uma criança para ser trocada por Kyomaru acontece.

Aos poucos o clima de insegurança e de desconfiança toma conta dos cinco policias da equipe. Por onde andam aparecem pessoas dispostas a tudo para obter a recompensa. Como também há uma recompensa para quem denunciar a posição do assassino durante seu transporte, surge a desconfiança entre os próprios responsáveis por sua guarda por sempre serem localizados.

A missão de levá-lo a julgamento acaba provocando imenso caos pelo Japão, contando com vítimas fatais. A pergunta que se faz é: vale realmente manter a vida de alguém como ele? Durante todo o filme, Kyomaru se mostra uma pessoa desprezível. Ele é um psicopata plenamente disposto a matar sem nenhum remorso. Então toda vez em que algum incidente mais grave ocorre e inocentes morrem, passa pela cabeça do espectador se simplesmente executá-lo ou então deixá-lo morrer não seria a melhor das opções.

A história envolve os mais variados tipos de pessoas, como um homem desesperado com dívidas, um grupo de mafiosos dentro de um metrô e inclusive o pai de uma vítima de Kyomaru, desesperado ao se deparar com um esforço tão grande em salvar o psicopata e não haver tal compromisso para cuidar de sua filha. As circunstâncias variam, mas sempre se encontram no ponto comum sobre dever ou não preservar a vida do bandido.

Um dos aspectos abordados pela obra não é apenas a ambição humana, mas as próprias consequências de fatores econômicos sobre as pessoas. Especificamente, o impacto da crise de 2008 sobre a sociedade japonesa, por todas as pessoas que tentam matar Kyomaru estarem com enormes problemas financeiros. Esta é uma das grandes sacadas do filme, em tirar a ótica macro usualmente apontada nos noticiários da televisão e levar o foco para os indivíduos que são atingidos pelo caos reinante nas finanças.

O filme fez parte da mostra do Festival de Cannes em 2013, onde não obteve boa recepção. Muito provavelmente isso ocorreu pelo fato de Escudo de Palha não ter maiores ambições do que ser uma boa história. Não há grandes impactos visuais exceto algumas cenas de ação. O filme possui momentos de tensão, sendo o ponto alto quando Mekari coloca a arma na boca de Kyomaru e reflete se não deveria matá-lo. O roteiro segue de forma bastante linear, sem nenhuma variação narrativa. Um dos pontos altos na história é o detalhamento dos personagens, muitos deles possuindo um grau de profundidade em coerência com a história.

Em um mundo que começa a absorver os efeitos da crise econômica e cola os cacos de suas consequências, Takashi Miike lança um pouco de gasolina no fogo, propondo um olhar mais humano sobre os indivíduos afetados enquanto as medidas tomadas se focam em grandes bancos e instituições. Ao mesmo tempo, nos mostra o quão difícil pode ser ter de tomar a decisão correta, mesmo quando agir pela forma mais ética e mantendo algo importante - a dignidade de uma nação inteira - pode terminar com um resultado negativo.

O diretor acerta em cheio em sua proposta. O filme traz o espectador para dentro de todos este dilemas, variando conforme suas expectativas prévias a ficar de um lado ou outro em suas opiniões quanto ao destino de Kyomaru. Talvez para o público brasileiro, acostumado com um Estado simplesmente ausente e com altos índices de violência rodeando o dia a dia, opinar pela execução sumária seja uma opção fácil. E é essa a outra visão que Escudo de Palha pode nos passar: que a construção de valores pode fundamentar uma sociedade, e que zelar por eles, mesmo que a alto custo, pode ser o que a sustentará de pé.

Guilherme Carvalhal
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