segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Brasil e sua música clássica

O Voz Ativa sempre teve como principal objetivo a interpretação de obras brasileiras. Para além deste objetivo, assumimos uma meta um tanto quanto ousada, mas que é, sem dúvida, um dos principais motivos de nossa existência. Em nossa opinião o Brasil carece de personalidade quando se propõe a interpretar Música Popular Brasileira em canto coral, o que nos impulsionou a buscá-la. A complexidade desta proposta, nossas experiências e a grande dificuldade encontrada na busca de resultados neste sentido serão, em momento oportuno, participada com nossos leitores. Para que pudéssemos colocar em prática o que nos propúnhamos o primeiro passo foi identificar os motivos que promoviam tal interpretação. Hoje estou convicto que um dos principais motivos, se não o principal, para esta incapacitação dos interpretes brasileiros está intimamente vinculado ao processo didádico-pedagógico que norteia a maioria dos professores de canto no Brasil caracterizado, principalmente, por um acentuado preconceito com a nossa música e uma exacerbada exaltação a produção européia e, com menos entusiasmo, a produção americana.
No entanto, apesar de termos a sensação que estamos remando contra a maré, temos encontrado com certa regularidade, no que diz respeito ao descaso generalizado com nossa produção erudita, a mesma preocupação em importantes personalidades de nossa música.
John Neschiling, no Programa de Concerto de julho de 2008, no texto de apresentação desta edição, externou seu descontentamento com este procedimento e sua preocupação em mudar este lamentável perfil. Gostaríamos de partilhar com nossos leitores que não tem acesso a estes programas esse, talvez despretensioso texto, mas que proporciona a quem se interessar importante material para reflexão.

“Quando ainda estudava no ginásio, no Rio de Janeiro, tínhamos no currículo a matéria Canto Orfeônico, introduzida por Villa-Lobos. Tínhamos um professor que ensinava uma linguagem manual intitulada “manossolfa” e fazia ditados melódios cuja melodia dificilmente captávamos. Cantávamos os hinos Nacional e da Bandeira , da Independência e da República, e errávamos sistematicamente as melodias, adaptando-as à lógica dos simplistas musicais, jamais ignorando as belezas melódicas e harmônicas inventadas por Francisco Braga, Francisco Manoel da Silva, ou Leopoldo Miguez. O que importa, no entanto, é que tivemos a noção de que existia uma música brasileira, além daquela que ouvíamos no rádio, e que havia compositores com estes nomes bonitos como Barrozo Neto, Luciano Gallet e Alexandre Levy, cujas as obras (diziam os livros) também eram importantes. Desde aquela época tive enorme interesse em conhecer essas maravilhas escondidas pela ‘história do pouco caso’ que dedicamos a nossa criação musical clássica. Durante décadas foi tremendamente difícil ouvir essas obras. Vez por outra, nos concertos da OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira) dirigida por Eleazar de Carvalho, aos quais, na minha infância e juventude, assistia religiosamente, eram apresentadas algumas peças brasileiras. Quase sempre eram exibidas como introdução aos concertos e recebidas com muito escárnio pelo público que esnobavam os “batuques e congadas” “maracatus e modinhas”, desprezando essas composições nativas e amando as oras européias, muitas das quais indignas dessa adoração.
Mais tarde, quando estudava música na Europa e nos EUA, percebi o interesse com que eram estudados e ouvidos os compositores de cada país, mesmo que fossem gênios celebrados pela humanidade. A França cultivava Satie e D’Indy, os austríacos estudavam Harmann e Schimnidt, na Itália ouvia Renzetti e Malipiero e nos EUA foi apresentado a Ives e Schumann (William, por favor...).
Por que no Brasil não se ouvia Nepomuceno, Lobo de Mesquita, Gallet e Fructuoso Vianna?
Nos anos setenta foi convidado a reger na China. Muito antes da abertura que caracteriza a China atual, fui ensaiar num país recém-saído da Revolução Cultural que o mantivera num isolamento criativo durante longos anos. Resolvi levar uma obra brasileira e escolhi a segunda das Bachianas Brasileiras, de Villa. Onde conseguir o material? Os chineses não pagavam direitos autorais, e fui pedir permissão a Dona Mindinha para executar a obra nestas circunstâncias. A viúva de Villa não só permitiu como me emprestou o material de orquestra do Museu Villa-Lobos, recém-criado. Ao chegar à frente da Orquestra de Pequim, fiz um discurso emocionado, afirmando o meu orgulho por ser o primeiro regente brasileiro a executar na China uma obra-prima do nosso compositor maior. Pus o material nas estantes e comecei a ensaiar. Notei que alguns músicos tinham grande dificuldade em acertar as notas. Parava constantemente e corria os erros no oboé, no clarinete, nas cordas ou no saxofone. O meu intérprete dizia coisas em chinês que eu não entendia, e os músicos continuavam a tocar errado. Sem saber o que fazer, pedi para as partes dos instrumentas, que, evidentemente, não havia revisado. Notei imediatamente que estas vinham eivadas de erros de cópia e que os pobres músicos estavam tocando o que liam. Profundamente envergonhado, tanto por mim como por meu país, que demonstrava assim um descaso quase criminoso com sua criação artística mais genial e que eu havia anunciado com pompa antes do trabalho, propus trocar o programa. Os músicos chineses, ao notarem o meu desconforto, tomaram uma atitude excepcional: após fazerem tantas cópias quanto necessárias da partitura do regente (que eu havia corrido antes de viajar), cada um dos instrumentistas levou o seu material para casa e, no dia seguinte, tive uma leitura impecável da Segunda Bachiana e do nosso Trenzinho Caipira com percussão e tudo.... Prometi a mim mesmo , naquela ocasião, que, se alguma vez tivesse oportunidade de pesquisar e editar corretamente obras do nosso imenso repertório de composições clássicas, que se estende desde o século XVIII aos nossos dias ininterruptamente, faria isso com energia e dedicação. (...)”
Reprodução parcial do Texto de John Neschilng editado no Programa de Concerto da Osesp Junho/Julho de 2008. p. 8-9
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