terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Os desafios de formação para o produtor cultural


Convidamos alguns produtores para contar sobre sua formação e o que fazem para se atualizar na profissão.
A Gerente de Operações Culturais do Sesi-SP, Debora Viana, é formada em Pedagogia e trabalha na área desde 2007. Ela começou como secretária da Diretoria Cultural e, em 2002, tornou-se produtora. “Quando comecei na área não tinha a real noção de como era o trabalho e confesso que aprendi na prática com os acertos e, principalmente, com os erros. Fiz um curso de produção cultural mas o que aprendi foi basicamente a estruturar projetos para inscrição em Leis de Incentivo”, conta.
Para se atualizar, ela procura ler muito sobre o assunto e participar de seminários, encontros e cursos. Atualmente, faz o MBA de Bens Culturais na Fundação Getúlio Vargas. “Acho que os cursos são importantes sim mas, em algumas situações, são muito teóricos, com muitas informações e orientações que na prática não são aplicáveis. Há muito conceito, muitas informações técnicas e pouca orientação quanto a gestão. Acho que a questão da gestão – com uso de ferramentas de gestão – deveria estar presente”, avalia.
Débora entende que ainda há uma visão reducionista sobre a cultura e a sua importância para o desenvolvimento e crescimento das pessoas.
Roberta Cibin, que faz o mesmo MBA na FGV, tem dúvidas se curso de formação é a melhor forma de capacitar um produtor no Brasil. Ela concorda que eles acabam ficando ainda muito no mundo das ideias, da teoria. “Sinto falta de cursos que usem ferramentas de gestão, de gestão de projetos que são utilizados em todas as outras áreas e não são aproveitados pela Cultura”, afirma.
Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda, ela trabalha no setor cultural há quatro anos. Durante a graduação, trabalhou no Festival de Teatro de Curitiba e na produção de alguns curtas e de um longa na mesma cidade. Depois de formada morou nos Estados Unidos e no Canadá, onde foi voluntária em centros culturais. No Canadá também fez uma pós-graduação em Gestão Cultural.
Hoje Roberta é produtora freelancer, mas pretende uma posição fixa em uma instituição ou produtora. “Nos EUA e Canadá me deparei com um outro tipo de gestão e produção, mais profissional e menos mambembe do que já tinha tido a oportunidade de trabalhar no Brasil. De volta a Curitiba o caminho se mostrou um pouco mais difícil para conseguir atuar na área. Foi quando decidi vir a São Paulo. Fiquei um pouco mais de um ano em uma produtora especializada em exposições e livros de arte e agora estou procurando uma nova posição”, conta.
Ela diz que, entre todos os cursos que já fez, a pós no Canadá foi “infinitas vezes” melhor no sentido prático.
Atuando na área musical e com uma boa carteira de clientes, Belma Ikeda acredita que, em produção, a teoria pode ser muito distante da prática. Por isso os cursos deveriam abordar mais esse lado do trabalho. “Tenho muita curiosidade sobre esses cursos e eventos, mas nunca tive oportunidade de fazer. Mas conversando com profissionais que já participaram, vejo que eles se baseiam muito no ideal e falta a prática. Felizmente tenho vários clientes, e várias funções, assim consigo me atualizar trabalhando em cada projeto em uma função diferente e em trabalhos diferentes.”
Belma começou como assistente, sem nunca ter tido nenhum contato com produção. “Na real foi um misto de assistente de produção com secretária. Eu tinha três chefes produtores e fazia assistência para eles. Muitos produtores que como eu começaram naquela época, começaram assim. Foi tudo na raça mesmo”, conta.
Troca - Formada em Publicidade, Propaganda e Criação, Karoline Brito hoje tem uma empresa de comunicação e produção cultural. Ela conta que, para se atualizar, participa de cursos livres, palestras e seminários. “Já fiz uma pós e um MBA na área. Leio bastante e converso muito com pessoas da área. Acho que os cursos são essenciais para se ter acesso a novas informações e linhas de pensamento, mas é necessário estudar por conta, ir atrás de mais material e ser muito curioso. Tudo isso, junto com as experiências do dia a dia e as redes de relacionamento vão fazer com que o profissional se desenvolva. Acho que o conjunto que faz a diferença.”
O ator e produtor teatral carioca Rodrigo França concorda sobre a importância da troca de experiências. Para ele, a troca com colegas é um dos principais responsáveis pela atualização profissional, além de cursos que possibilitam rever formas de produzir. “Acredito que os cursos possibilitam uma imensa forma de capacitar, desvendar o mercado que é bastante restrito.”
Mas ele, que começou produzindo eventos para gravadoras, sente falta de cursos com valores populares ou gratuitos, para que pequenas produtoras possam ter acesso. “A minha formação na área foi pela experiência prática… o intenso cotidiano”, diz.
Também da área teatral, Flavio Barollo começou a produzir pela necessidade de se expressar como ator, “sem depender de convites do mercado”. Levou um ano ou mais para estudar todas as leis, aprender a dinâmica de produção, elaboração de projetos, escolha de material artístico, amadurecer.
“Um ano de investimento e estudos solitários”, diz ele, que é formado como engenheiro e tem MBA em gestão de negócios. Paralelamente, foi desenvolvendo seu projeto artístico e criou a Cia. Mamba de Artes.
Para ele, estudo e prática tem que andar juntos. “A gestão de projetos culturais hoje exige muitas habilidades, que talvez seja uma lacuna no Brasil. Como vim da área de engenharia, e conheci o mercado imobiliário, desde criação de projetos, construção, vendas, publicidade, talvez eu tenha suprido alguma deficiência em lidar com elaboração de projetos, planilhas financeiras, administração de recursos, marketing. Mas acontece que no ‘mercado tradicional’ existem recursos, muitos departamentos e muitos profissionais contratados. Para a cultura não sobram os mesmos montantes suficientes para montar grandes equipes, que possam lidar melhor com todos os aspectos da gestão.”

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