quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

IG intrevista o novo secretário da Cultura do Est. de São Paulo

"Acho que o Vale Cultura é um factóide", diz Andrea Matarazzo
Secretário da Cultura de São Paulo critica iniciativa federal e diz que prioridade no estado é "interiorização"
Secretário de energia do governador Mario Covas, ministro da Secretaria de Comunicação do presidente Fernando Henrique Cardoso, subprefeito da Sé na gestão José Serra. A folha de serviços de Andrea Matarazzo é extensa. E segue com a administração Geraldo Alckmin no Estado de São Paulo.
Matarazzo é o titular da pasta da cultura, e é um dos poucos secretários do governo anterior a continuar no cargo.
Segundo ele, suas principais preocupações no cargo são a "interiorização" e a "universalização" da cultura. Em outras palavras, levar a cultura ao interior do Estado e dar acesso a quem não tem. Matarazzo recebeu a reportagem do iG em seu gabinete, no centro de São Paulo. Ele ainda falou sobre suas ideias para os museus e bibliotecas do estado, leis de incentivo e TV Cultura. E aproveitou para criticar o Vale Cultura (plano do governo federal que pretende fornecer R$ 50 mensais para famílias carentes consumirem bens culturais).

Abaixo, a entrevista.

iG: Quais são as prioridades do seu mandato como secretário da Cultura de São Paulo?

Andrea Matarazzo: As prioridades são, em primeiro lugar, interiorizar a cultura. Em segundo, universalizar o acesso à cultura. Veja, por exemplo, a Pinacoteca do Estado. Ela é um dos melhores equipamentos do Brasil, tem um acervo fantástico. É um primeiro ensaio de interiorização.

iG: Como isso será feito?

Andrea Matarazzo: Utilizando sua reserva técnica como acervo para pinacotecas no interior de São Paulo. Estamos fazendo um primeiro estudo em Botucatu. O prefeito tem um prédio belíssimo, o antigo fórum de Botucatu, um projeto de Ramos de Azevedo. Hoje o prédio está vazio, e queremos colocar o acervo da Pinacoteca lá. Vamos estudar depois outros locais, como Presidente Prudente e Ribeirão Preto.

iG: A ideia então não é levar as mostras em cartaz na Pinacoteca, mas o próprio acervo?

Andrea Matarazzo: Exatamente. Queremos implantar a Pinacoteca, em parceria com municípios, no interior do Estado. Esse acervo fica lá nas cidades. Passa a ser, vamos dizer, uma filial da Pinacoteca.

iG: Quando isso deve ser implantado em Botucatu?

Andrea Matarazzo: Estamos estudando. Já vimos o prédio, falamos com o prefeito, estamos fazendo os estudos técnicos. É uma parceria: nós implantamos e o município administra.

iG: E a universalização do acesso à cultura, como ela pode ser implantada?

Andrea Matarazzo: Veja o caso do MIS (Museu da Imagem e do Som). Primeiro, ele precisa ser revisto aqui em São Paulo mesmo. Estamos vendo como melhorá-lo, como torná-lo novamente atraente, como ele já foi. MIS e Paço das Artes, juntos, recebem 60 mil pessoas por ano. É muito pouco.

iG: Como levar as pessoas até o MIS?

Andrea Matarazzo: Vamos levar o MIS até as pessoas. É um acervo de imagem e de som, portanto pode ser digitalizado. Considerando que o acervo digital é facilmente transportável para outros lugares, é possível fazer terminais remotos do MIS. Eles podem estar dentro das oficinais culturais e das fábricas de cultura. Isso é fácil de fazer, e é uma forma de dar acesso a quem não tem a coisas boas.

iG: Esses terminais poderiam estar em bibliotecas também?

Andrea Matarazzo: Sim, claro. A Biblioteca de São Paulo, no Parque da Juventude, está recebendo 50 mil pessoas por mês. É muita gente. Por quê? Porque é uma biblioteca diferente. Primeiro, o acervo dela vai de gibis a revistas semanais, passando por best-sellers e clássicos. Ainda tem terminais de computador, filmes, música. Você tem de ir na direção do que as pessoas querem.

iG: É um bom modelo?

Andrea Matarazzo: É um belo modelo. Em agosto do ano passado começamos a fazer outra biblioteca no Belém (zona leste da capital paulista) e estamos estudando a possibilidade de fazer algumas no interior. Estamos justamente conversando com prefeitos agora para possibilitar apoio nosso para a reforma de bibliotecas que eles têm, transformando nesse modelo. É um fato: se não tiver internet na biblioteca, ninguém vai. E se não abrir no final de semana, também. Biblioteca com horário de funcionamento de serviço público não tem cabimento.

iG: Sobre o o MAC (Museu de Arte Contemporânea), ele deveria ter mudado da USP para o antigo prédio do Detran em dezembro. Quando essa mudança vai acontecer?

Andrea Matarazzo: Primeiro, o prédio do Detran levou um tempo para ser desocupado. Era preciso tirar uma estrutura imensa lá de dentro, e isso atrasou um pouco. Segundo, é uma obra delicada, porque é um prédio tombado, feito pelo Oscar Niemeyer. O prédio deve ficar pronto em abril, e daí deve funcionar vazio por um mês e meio ou dois, para ver se tudo está bem: climatização, iluminação, segurança. Acredito que até julho ele esteja pronto.

iG: Qual a importância da mudança do MAC para a região do parque Ibirapuera?

Andrea Matarazzo: O seu acervo é o mais importante de arte contemporânea da América Latina. As obras estavam guardadas na USP, com uma mínima parcela exposta, algo em torno de 1%.

iG: O que o senhor acha das leis de incentivo à cultura? Elas funcionam?

Andrea Matarazzo: Eu não vi com detalhes ainda a mudança da Lei Rouanet. Mas, bem ou mal, ela já funcionava bem. Aqui em São Paulo, nós temos os incentivos do Estado, como o Proac-ICMS e o Proac Editais. Eles são importantes. Há atividades, como o teatro de laboratório, que se não tiverem um apoio não funcionam. O cinema também ainda precisa de apoio. No Brasil não existe a tradição das empresas investirem em cultura se não houver incentivo fiscal.

iG: E o Vale Cultura, como o senhor avalia?

Andrea Matarazzo: Não sei. Não sei se funciona. Tem que esperar como vai ser, o que é. Acho que foi um factóide para um determinado momento, tanto que não está no mercado. Eu acho o seguinte: o que você tem de fazer é estimular a produção existente, às vezes com medidas diretas. O Vale Cultura... não saberia opinar.

iG: No caso da TV Cultura, qual deve ser o foco de programação da emissora?

Andrea Matarazzo: A TV Cultura, antes de mais nada, é uma fundação. Ela não é ligada à Secretaria da Cultura. Mas isso que o presidente [da Fundação Padre Anchieta, que controla a TV Cultura] João Sayad está fazendo, ao focar na produção de infantis e comprar conteúdo de produtoras independentes, é um bom caminho. E também dar acesso a quem não tem TV a cabo, exibindo bons programas do Discovery Channel, do History Channel. O João Sayad tem uma visão bastante clara e está na direção correta.

iG: O governo estadual anunciou um contingenciamento de R$ 1,5 bilhão no orçamento. A Cultura foi afetada em quanto?

Andrea Matarazzo: Muito pouco. Cerca de 10%, nada que afete os planos. Estamos com um orçamento bom, somado à TV Cultura, de R$ 1 bilhão.

iG: É suficiente?

Andrea Matarazzo: É bom. Suficiente nunca será. Se você puser R$ 2 bilhões, será insuficiente. Mas ele é incomparavelmente melhor do que já foi historicamente.

iG: Nas últimas eleições para a Prefeitura de São Paulo, o nome do senhor era um dos cotados para a disputa...

Andrea Matarazzo: Mas nós não estamos falando de cultura?

iG: O senhor não tem a ambição de disputar um cargo público?

Andrea Matarazzo: Nenhuma. Nunca disputei nenhum cargo público. Se tivesse essa ambição, já teria disputado.
Augusto Gomes e Thiago Ney, iG São Paulo
Foto: Agencia Estado Ampliar
disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/
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