sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Teatro Municipal perde diretor no ano do centenário


Alex Klein disse que não conseguiria garantir que faria neste ano uma programação à altura do centenário do teatro

Contratado em setembro como diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo até o fim de 2013, o maestro Alex Klein se demitiu na noite de anteontem. E saiu atirando. Disse que "renunciou" ao cargo - e ao salário de R$ 35 mil -, porque "não conseguiria olhar no rosto" de um paulistano e garantir que faria neste ano uma programação à altura do centenário do teatro, que será celebrado em 12 de setembro.

Alex Klein. 'O Teatro Municipal não é de hoje que está um caos. Vem de décadas', diz maestro
Segundo o Estado apurou, o motivo foi um choque com o diretor cênico Felipe Hirsch, contratado para dirigir uma montagem da ópera Rigoletto (com Daniela Thomas), que estreia em 13 de setembro. A regência será de J. David Jackson, da Metropolitan Opera House de Nova York. "Há outras forças querendo opinar, querendo deixar a sua marca e criando conflito", afirmou Klein. "O Teatro Municipal não é de hoje que está um caos. Vem de décadas".

Como foi a decisão?

Informei ao (Carlos Augusto) Calil (secretário municipal de Cultura) e hoje (ontem) de manhã deixei lá escrito e assinado. Estou renunciando à temporada 2011, à direção artística, e deixo a cargo dele se vai precisar da minha participação daqui pra frente. Eu não posso olhar para o seu rosto e dizer que a temporada do centenário vai ser a melhor possível, dentro das circunstâncias. O que precipitou minha decisão foi o cancelamento do Concerto de Gala, que estava planejado para o dia 12 de setembro, que é o dia do aniversário do teatro. Isso foi feito sem o conhecimento da direção artística. Eu não fui consultado. E, ao enviar a minha programação preliminar, ideias e como iríamos fazer esse trabalho, fomos informados de que tudo era sem razão porque o concerto tinha sido cancelado. Isso tem acontecido muitas vezes. Eu não me senti como um diretor artístico nesses quatro meses, talvez eu tenha sido um escudo.

O senhor suspeita de que sua reputação tenha sido usada para maquiar uma falta de projeto?

Exatamente. Que eu possa estar mascarando as ações artísticas de outros que continuaram agindo, apesar de agora a gente ter uma direção artística. Direção artística para mim não é só marcar data. O público vê a data, mas atrás de cada data tem cinco a dez ensaios, tem centenas de profissionais, coisas que têm de ser organizadas de maneira correta. Quando algo é cancelado, cria um efeito dominó. E, quando esse algo é simbolicamente o concerto mais importante dos últimos cem anos, eu tenho de vir a vocês e como diretor artístico justificar isso. E não tenho como fazer isso. As Valquírias estavam agendadas para junho, mas o teatro não vai ficar pronto. Houve a possibilidade de passá-la para setembro. Mas talvez o fogo do inferno não seja a melhor maneira de celebrar o centenário (referindo-se a passagens da ópera). O Rigoletto estava para novembro, então nós pensamos: vamos trocar essas duas. Quando o artista chega e diz: eu quero o teatro todo para mim, eu acho isso maravilhoso. Eu gosto de gente egoísta, que defende com unhas e dentes o seu trabalho. Mas o meu trabalho como diretor artístico é garantir que o terceiro corne inglês da orquestra tenha o mesmo valor que o (Daniel) Barenboim. Para a direção artística, todos são iguais e a gente vai alocar espaço, tempo e dedicação para cada projeto de maneira igual. Não se pode tratar com estrelas dentro da direção artística. O público pode ter, vocês na mídia podem. Mas na direção artística todo mundo é igual.

O senhor está se referindo a uma pessoa específica?

Falo de todos. Mas, nesse caso, foi a direção de cena que gostaria de ter mais tempo para a montagem do Rigoletto. Isso nos forçou a cancelar duas temporadas do nosso queridíssimo Balé da Cidade de São Paulo, que é mundialmente famoso. Não sei de quem é a decisão tomada que cancelou o Concerto de Gala.

De quem é a direção de cena do "Rigoletto"?

Eu não posso criar problemas para a pessoa, porque não é culpa dela. Ele não tem culpa de exigir espaço. A culpa é nossa de não organizar isso de uma maneira correta, entende? Eu espero que todos os artistas que venham ao Teatro Municipal exijam que o teatro seja só deles.

CRONOLOGIA

1911 - Depois de nove anos de construção, teatro é inaugurado com encenação de Hamlet. Do lado de fora, operários posam para foto ao fim da obra.

1922 - Teatro Municipal é palco da Semana de Arte Moderna.

1951 - Estrutura passa por ampliação, sob comando do arquiteto Tito Raucht.

1986 - Começa a segunda intervenção, um restauro que só terminaria em 1991.

2008 - Prédio é fechado novamente para reforma, que deve recuperar características originais. Não há data para reabertura.

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo
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