quinta-feira, 28 de junho de 2012

A CRIATIVIDADE REINA NO THEATRO SÃO PEDRO-L'ELISIR D'AMORE DE DONIZETTI.





O Theatro São Pedro / SP abriu sua temporada de óperas na noite do dia 26 de junho com um título querido pelo público. L'Elisir D'Amore é uma das óperas mais conhecidas de Donizetti. Nela temos cenas cômicas, belas árias e duetos e um amor inocente que nos dias atuais seria considerado até bobo. L'Elisir D'Amore contagia com sua bela música  e é encenada há quase duzentos anos. Grandes sopranos e tenores atuais e da antiga já cantaram a alegria e as mazelas de Nemorino e Adina.
A opção do diretor Walter Neiva de trazer o enredo para a década de 40 do século XX era um risco eminente. Grandes diretores já se atrapalharam transportando a ação para épocas diferentes do libreto. Walter Neiva consegue , com maestria , e sem inventar moda modernizar a ópera, transportá-la para a década de 40 e ser fiel ao libreto. Não inventa moda, não faz firulas e não quer aparecer mais que os outros. Idéias criativas e inteligentes fazem parte de toda a apresentação, suas marcações são corretas, a movimentação dos cantores e do coro realça o cômico . Arranca muitos risos da platéia, diverte e emociona ao mesmo tempo.
   O cenário é de uma beleza sem igual, digno de figurar em grandes teatros. O melhor cenário apresentado pelo Theatro São Pedro nos últimos anos. Os figurinos impecáveis e a luz realçaram ainda mais a apresentação.
  A escalação do elenco foi um primor: vindo da frança tivemos Sébastien Guèze. O jovem tenor tem uma voz com timbre interessante, pequena e adequada ao personagem. Exagera nas caretas ao cantar , mas atua com emoção. Esse é um detalhe que não pode escapar, sua atuação junto com sua voz emociona o público. Os conhecedores de ópera  podem reclamar de sua técnica, dizer que sua tessitura , seu legatto e sua extensão não são das melhores, eu concordo com eles. Mas o jovem tem a capacidade de ser um grande Nemorino, pela atuação cênica e pela superlativa capacidade de emocionar o público. Isso é mais que suficiente para um grande Nemorino.  
  Gabriella Pace arrasou como Adina, sua voz esteve maravilhosa. Lírica , jovial e sedutora. Sua atuação cênica impecável mostrou sentimentos de desprezo e paixão quando o libreto exigia. Mostrou grandes qualidades vocais do início ao fim da récita, tudo adequado a personagem. Grande soprano, grande atuação vocal que arrepia a cada nota.
   Sebastião Teixeira fez um  Sargento Belcore engraçado e interessante. Sua voz de barítono tem belos graves e agudos consistentes. Sua atuação cênica mostra todas as trapalhadas e ansiedades do militar que deseja casar  o mais rápido possível com Adina. Sua patente é de sargento , mas seu uniforme mostra medalhas e condecorações de general, tudo hilário. Bravo Teixeira!
   Outro que arrebentou foi Saulo Javan, como Dulcamara foi o mais charlatão dos charlatões. Sua voz tem graves maduros , consegue uma agilidade incrível para um baixo. Voz possante , madura e arrepiante. Atuação soberba, quase derruba o cenário na sua saída do palco com a bicicleta. Excelente Dulcamara.
 O programa cedido ao público saiu da mesmice e mostrou informações apresentadas de maneira inusitada e criativa. Dar bem casado , com o nome de Adina e Nemorino , ao público na saída do espetáculo é outra idéia interessante que agrada a todos. Espero que essa produção não se perca e que seja apresentada no decorrer dos próximos anos. A Orquestra do Theatro São Pedro manteve grande qualidade: tempos , volume e sonoridade compatíveis com a ópera de Donizetti. Nas mãos do maestro Emiliano Patarra rendeu apresentou uma sonoridade digna de um grande Donizetti. O coro esteve brilhante, nas suas intervenções mostrou grandes qualidades vocais e ritmos que combinam com a obra. 
   Dia de estréia (geralmente escrevo estréia com acento, a reforma ortográfica que vá às favas) é peculiar, estão presentes cantores , diretores  e muitos que escrevem e trabalham no meio. Uma presença em especial me chama a atenção, o diretor do Theatro Municipal de São Paulo , Abel Rocha. Ele assistiu a récita e espero que se inspire em fazer óperas com essa qualidade. Contratar Walter Neiva é uma grande solução. Depois do Rigoletto de 2011 e da La Traviata desse ano a coisa anda meio complicada por lá.

Ali Hassan Ayache
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