quarta-feira, 6 de junho de 2012

Da Sacra à Religiosa Um breve olhar na história da música protestante.

Da Sacra à Religiosa Um breve olhar na história da música protestante. 
Parte II

Um olhar na história da música protestante

Fica evidente que uma nova teologia recorre a uma nova estética formal e artística. Tendo uma eclesiologia divergente da Romana, as igrejas da primeira reforma trabalharam a “Centralidade do Culto” de formas reformuladas ou adversas ao culto romano.

O altar permanece o centro da eclesiologia anglicana, porém há uma simplificação na elaboração litúrgica de forte influencia luterana, conseqüentemente na simplificação das tintas musicais, mantendo uma ortodoxia protestante. Além de “motetos e missas”, os compositores elisabetanos também escreveram hinos para serem cantados por coros durante os cultos das igrejas. O hino é contado em inglês e não em latim como nos motetos.

Há duas espécies de hinos: o hino completo (full anthem), cantado pelo coro do começo ao fim, sem acompanhamento instrumental; e o hino com acompanhamento em versos (verse anthem), com solistas, coro e órgãos ou violas.

Já na eclesiologia luterana se divide em ortodoxa e pietista, onde na primeira temos na música um requinte e exclusivismo do canto nas músicas pelo Coro e “Kantor”, e na Segunda a participação efetiva da comunidade cantando as músicas na igreja. Cria-se a tradição de compor hinos para serem cantados em alemão por toda a congregação, no lugar dos “Corus” cantados em latim. Podiam ser músicas recentemente compostas sacras ou populares, como podiam ser originários de cantochãos.

O procedimento de Lutero foi o seguinte: ele toma algumas melodias do repertório popular e de outras fontes, para doutrinar os fiéis. Segundo ele, o povo deveria aprender doutrinas bíblicas cantando melodias simples relacionadas ao seu dia-a-dia. Este procedimento foi extremamente importante para o sucesso e popularização da reforma. Em carta escrita a Spalatinus, secretário de Frederick I, Lutero revela seu intento:

“(Nosso) plano é seguir o exemplo dos Profetas e os Pais antigos da Igreja e compor salmos para as pessoas no vernáculo... de forma que a Palavra de Deus também possa estar entre as pessoas em forma de música”.

Na eclesiologia calvinista a “palavra” se torna o centro de tudo. A mesa do altar sai do centro para dar espaço ao púlpito.

Essa dinâmica parte para certos extremos onde igrejas chegavam a ter púlpitos com três andares e a música nestes casos ficava limitada quanto a sua execução nos cultos. No entanto, Calvino usou a música como suporte ao ensino das Escrituras, apesar de ter uma posição totalmente diferente de Lutero no que diz respeito a sua visão musical. Para entender o ponto de vista de Calvino sobre a música é necessário conhecer também a sua teologia. Ele não permitia o uso de instrumentos musicais e nem qualquer música no culto. Calvino porém, defendia o uso exclusivo da Salmódia, que era uma coleção de cântico dos Salmos de Davi; os demais usos poderiam ser nocivos, pois, segundo ele, a depravação da raça humana, poderia comprometer a pureza do Evangelho de Cristo. Diz ele em sua obra intitulada “As Institutas da Religião Cristã”, volume III, que “as Escrituras nos dizem que todas as nossas obras são maculadas, e, portanto, não podem suportar o escrutínio de Deus”.

Porém, o apreço de Lutero pela música tinha raízes na sua infância, pois fora educado para se tornar um Kantor da Kurrende. Ao ingressar na vida monástica, teve a oportunidade de conhecer a música dos mestres contemporâneos e de aprender o canto gregoriano. Embora tenha aprendido a tocar o alaúde e a compor (por conta própria durante uma enfermidade), sua instrução musical iniciada na infância teve seguimento na Universidade de Erfurt. Já maduro, Lutero expressaria, em carta de outubro de 1530 a Ludwig Senfl, a convicção de que somente a música poderia, ao lado da teologia, fornecer paz e alegria à alma humana:

“Pois sabemos que os demônios odeiam e não suportam a música. Dou minha opinião bem franca e não hesito em afirmar que, depois da teologia, é a música que consegue uma coisa que no mais só a teologia proporciona: um coração tranqüilo e alegre. Uma prova muito clara disto é que o diabo, o causador de tristes preocupações e de tumultos perturbadores, foge do som da música quase tanto como da palavra da teologia. É por isso que os profetas de nenhuma arte se serviram como da música. Sua teologia eles não a expressaram pela geometria, nem pela aritmética ou astronomia, mas pela música, ligando, portanto, estreitamente teologia e música e dizendo a verdade em salmos e hinos.”

Com a finalidade de colocar em prática a idéia de um culto em que houvesse uma participação mais ativa dos crentes e necessitando de hinos com texto em alemão, Lutero empenhou-se em requisitar que os compositores de língua alemã o ajudassem nessa tarefa, colaborando com novas composições. A prática anterior do canto ficava delegada aos que presidiam a missa. O canto de hinos pela congregação era algo muito inovador e os hinários ainda não eram acessíveis ao povo. Os hinos eram escritos com a melodia no tenor, com arranjo para quatro vozes, concebidas como instrumentos acompanhadores. Não existia ainda a harmonia funcional com sua sucessão de acordes encadeados tonalmente. A polifonia consistia aqui no arranjo das vozes em torno do cantus firmus. Essa melodia principal era quase sempre retirada de outra fonte conhecida, processo denominado contrafactum. Lutero prezava a simplicidade do tema; que vinha no cantus firmus, porque queria que o texto fosse compreendido claramente pelos que sabiam ou não ler.

As novas melodias trabalhadas por Lutero iriam evoluir para o que passou a ser denominado de coral protestante. Em princípio, as técnicas composicionais desse coral diferiam bastante daquelas que, na segunda metade do século XVI, caracterizariam este estilo. Usava-se uma notação não-rítmica, com melodias emprestadas dos Lieder seculares ou com melodias compostas com os mais variados exemplos rítmicos e não-rítmicos, com fermatas nos fins de frases.

Nos séculos XVI e XVII, contemplamos um Barroco tardio nas igrejas protestantes como parte da estética litúrgica dominical. A música sacra do período barroco defrontou-se com a alternativa entre ficar com a tradição (o stile antico), que representava todo o acervo que os compositores haviam adquirido através do seu treinamento acadêmico, ou aceitar o stile moderno, ora representado pelas várias tendências que surgiam.

São seus maiores representantes J. S. Bach pela igreja luterana e G. F. Haendel pela anglicana, os quais são responsáveis por essa prática no protestantismo europeu deste período.

No âmbito religioso, a última metade do século XVI e todo o XVII viram surgir um movimento de avivamento espiritual, que destacava a liberdade individual. Seus adeptos queriam desligar-se de toda a autoridade temporal e legalmente constituída, quer política quer religiosa, para poderem se dedicar às leis do "Reino". Esse individualismo era herança da Renascença e tornou-se conhecido como "pietismo". Os pietistas rejeitavam a ortodoxia representada pela conservação dos dogmas tradicionais, que se baseavam na observância fiel das formas litúrgicas, dos sacramentos, da Bíblia e do sermão. O movimento pietista reuniu cristãos de várias denominações, incluindo católicos, os quais tinham como propósito, uma vez desvinculados das autoridades, reunirem-se para oração, para trabalhos de assistência social e para compartilharem suas experiências religiosas. O movimento inspirou uma hinódia marcada pelo subjetivismo, com melodias adaptadas para o compasso ternário, que servia para as danças, em contraste com o estilo coral anterior.

O iluminismo, que alimentava a música de concerto (fora do templo), iria influir na teologia e na música sacra a partir da segunda metade do século XVIII. As pessoas estavam às voltas com o racionalismo, que substituía o pietismo. A classe média alta, na Alemanha, dada a influência dos concertos públicos, começava a se afastar da igreja, e a música secular atingia o clímax com a Escola Clássica Vienense. No fim do século XVIII e início do XIX as igrejas protestantes viam o enfraquecimento das instituições que eram em grande parte nutridas por elas. As escolas para meninos e coros, os músicos Kantor responsáveis pelo seu treinamento, as sociedades Kantoreien, que tinham a finalidade de manter os coros de adultos, começaram a perder sua importância tanto nas cidades maiores como nos pequenos centros.

(continua)
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