quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Sagração da Primavera - Parte III


A dança do sacrifício 

UMA MÉTRICA “ADITIVA”
Manoel Correa Lago


As inovações mais impressionantes da “Sagração” são de ordem rítmicas, e ocorreriam em vários planos. Entre elas, a mais visível é o recurso da “polimetria”, alternância métrica entre os compassos sucessivos, e que atinge o paroxismo na “Dança do Sacrifício”, cena final da obra.
O efeito de deslocamento, resultante da polimetria, é realçado pela utilização de acentos irregulares (notadamente no início dos “Agúrios Primaveris” e, com uma frequência ainda maior que em “Petrunshka”, pela utilização de ritmos ímpares (de 5, 7,11 tempos) os quais são característica dos folclores eslavos, que tanto os diferenciais das músicas, sejam de concerto ou populares, da Europa ocidental, cujos ritmos “quadrados” (de 2, 3, 4,6 tempos) se desenvolvem dentre de uma espécie de métrica regular e única.
Em ‘924, nas suas “Rice Lectures” Nadia Boulanger assim comentava o que esse recurso implicavam como mudança nos hábitos de escuta: “O elemento de maior dificuldade na música de Stravinsky é o ritmo, tanto para o leigo quanto para o músico treinado. Já muitos séculos, temos vivido sob a tirania da barra de compasso, do tempo forte reaparecendo a intervalos regulares, com um insistente monotonia. Consequentemente, temos dificuldade de admitir um outro tio de ritmo, no qual a métrica está em constante mutação e na qual somos obrigados a perceber acentos, a intervalos que não são mais regulares. a música de Stravinsky reata com a rítmica grega da Antiguidade, a qual (em vez de tomar com base a unida máxima, para depois subdividi-la em frações de metade, quarta patê, oitava parte etc.) tomava como ponte de partida a unidade mínima e multiplicava por qualquer número par ou impar (3, 4, 5, 6,7 etc.) Isto é precisamente o que Stravinsky superpõe ritmos, da mesma maneira que um contrapontista superpõe temas”. ’          
Por outro lado, o tratamento do ritmo enquanto entidade autônoma fica evidenciado através do uso dos longos ostinatos (padrões repetidos): a repetição (11 vezes em fortíssimo) do acorde que precede a cena da “Glorificação da Eleita”, e, sobretudo (no caso dos ‘Angúrios Primaveris’) as mais de 200 repetições do mesmo acorde (porém sempre com deslocamento da acentuação) no longo dos 50 compassos, entre os 70 que iniciam esta cena.
“Em um famoso artigo de 1953, intitulado Stravinsky demeure (Stravinsky permanece), Pierre Boulez, tomando com ponto de partida a análise de Messians das células rítmicas da “Sagração” enquanto Elementos rítmicos”, ou seja, elementos “geradores” que constroem e costuram toda a obra, declarava que “a escrita rítmica de Stravinsky permanece ainda inexplorada, pelo menos em suas virtualidades(...) no decorrer da história da música, são poucas as obras, das quais e pode gabar, 40 anos após sua composição, o privilégio de não terem esgotado o seu potencial de inovação”
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