quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Frevo: um século de cultura genuinamente brasileira


Considerada um dos grandes pólos culturais do Brasil, a região Nordeste, mais especificamente a capital pernambucana Recife, tem todas as honras e méritos de declarar a paternidade do frevo para si. Uma das maiores expressões do povo brasileiro, o estilo – música e dança – completou no dia nove de fevereiro seu centésimo aniversário.

Entre os inúmeros presentes que a data proporcionou (e proporcionará), o mais importante surgiu exatamente no dia dos cem anos da gênese do ritmo: O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional) declarou o frevo como patrimônio imaterial – "as práticas, as forma de ver e pensar o mundo, as cerimônias (festejos e rituais religiosos), as danças, as músicas, as lendas e contos, a história, as brincadeiras e modos de fazer, junto com os instrumentos, objetos e lugares que lhes são associados", segundo explicação do instituto.

O frevo acaba por reunir em si só uma série de antíteses: de musicalidade forte e destacada, geralmente liderada pelo som soberano dos metais e das batidas rápidas e sincopadas, vem acompanhado pelos passos tradicionais de sua dança, que, mesmo contando com a destreza dos movimentos, são de leveza e suavidade impar.

A origem do vocábulo, por sua vez, está estritamente ligada aos resultados que o frevo gerava na multidão do Recife. A associação de termos é de uma lógica sem igual: a palavra “ferver”, pronunciada na linguagem simples e popular, acabou sendo transformada em “frever” no uso cotidiano de parte dos pernambucanos.

Do verbo para o substantivo, o termo acabou sendo enunciado pela primeira vez em 9 de fevereiro de 1907, no extinto Jornal Pequeno, em nota citando um ensaio do clube Empalhadores do Feitosa, do bairro do Hipódromo, no Recife, que contava com uma das músicas do repertório carregando o título “O Frevo”. A data, a mais utilizada no R.G. do estilo, é uma descoberta do pesquisador Evandro Rabello.

Todavia, o dia de nascimento ‘oficial’ ainda gera controvérsias. Há quem defenda que o frevo foi chamado assim pela primeira vez apenas em 12 de fevereiro de 1908, pelo cronista Paula Judeu (Oswaldo da Silva Almeida) no mesmo Jornal Pequeno. Independente da data, um fato: o frevo já era dançado pelos pernambucanos à exaustão – literalmente.

A primeira composição a levar o nome do gênero foi “Frevo Pernambucano”, de Luperce Miranda e Oswaldo Santiago, lançada no final dos anos 1930 por Francisco Alves. Outros grandes clássicos do frevo que surgiram ainda em suas primeiras décadas foram “Vamo se Acaba”, de Nelson Ferreira, e “Mulata”, dos irmãos João Vitor e Raul Valença, que acabou ganhando repercussão nacional após algumas modificações de Lamartine Babo, autor da marchinha “Teu Cabelo Não Nega”.

Com o tempo, novas influências foram assimiladas pela musicalidade, chegando a tamanho ponto de diversidade que levou o estilo a ser subdividido em três: Frevo de Rua - puramente instrumental -, Frevo-canção - constituído por uma introdução forte de frevo, seguida de canção, concluindo novamente com frevo – e Frevo de Bloco - tocado por orquestra de pau e corda e cantado.

Se uma canção deve ser elevada ao posto de hino, essa é “Vassourinha”. Quando o frevo de autoria de Matias da Rocha e Joana Batista Ramos é tocado, algo é certo: a dança vai começar - dança esta que teve seus passos originados da capoeira. A história conta que os lutadores/ jogadores ficavam à frente das bandas marciais, dançando e defendendo os músicos das multidões. A sombrinha, comumente associada à dança, foi a escolha lógica para substituir os guarda-chuvas usados pelos pasistas para dar equilíbrio aos movimentos. A criatividade é tanta que, hoje em dia, mais de 120 estão catalogados.

Para comemorar o centenário, a prefeitura do Recife promoveu um evento que reuniu em cima dos palcos grandes nomes da música brasileira, como Maria Rita, Vanessa da Mata e Ney Matogrosso, além do ministro da Cultura, Gilberto Gil. Os mesmos artistas participaram da gravação de um álbum duplo recheado com composições das três subdivisões do frevo. O lançamento ficará a cargo da gravadora Biscoito Fino.

Outra boa pedida para festejar a data são os dois volumes da série “9 de Frevereiro”, do pernambucano Antonio Nóbrega. Acompanhado de integrantes da SpokFrevo Orquestra, os discos vêm recheado com frevos-canção e frevos instrumentais de grandes nomes dos primórdios do gênero, indo desde os hoje quase esquecidos Irmãos Valença até os imortais Capiba e Nelson Ferreira.

Contudo, a recomendação para quem quer experimentar um pouquinho do gosto do estilo não poderia ser outra: apenas uma viagem para o carnaval pernambucano, seja ela para Recife ou Olinda, irá proporcionar a você a verdadeira experiência do ato de frevar – dando, de quebra, a oportunidade de dizer, em alto e bom som, nas terras sagradas do ritmo genuinamente brasileiro: parabéns, frevo!
Gustavo Silva

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