segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo no Proms em Londres, e a ignorância brasileira sobre a musica erudita


Quando da abertura das Olimpíadas deste ano, a bandeira olímpica foi solenemente carregada por oito pessoas, que se destacaram por sua luta pela preservação da harmonia dos povos e do meio ambiente. Entre as oito pessoas estava a brasileira Marina Silva por sua luta pela preservação das florestas (ou o que sobra delas) brasileiras. Perto dela, estava o maestro Daniel Barenboim. Notável maestro e pianista é um dos músicos mais conhecidos do planeta, e estava ali como reconhecimento de sua luta (um tanto quanto inglória) pela união de árabes e judeus. O comentarista da televisão brasileira, um renomado crítico de cinema, encarregado de narrar e explicar a cerimônia, simplesmente não fazia ideia de quem era “aquele senhor” que estava junto a Marina Silva. Esta ignorância em relação à música erudita é uma constante no nosso meio intelectual. Não se trata só de uma questão de gosto. Trata-se de uma questão de cultura geral. Exemplos do que digo? Vejamos alguns exemplos. É difícil se conseguir uma visão completa do surgimento do estilo gótico sem conhecer a música de Leonin (padre e compositor francês que viveu de 1135 a 1201). E é difícil se compreender a amplitude dos ideais da Revolução Francesa sem conhecer a obra de Beethoven. E como podemos aquilatar a importância da Semana de Arte de 22 sem conhecermos as obras que Villa-Lobos apresentou naquele evento? Nestas horas tenho muita saudade de Paulo Francis, um jornalista extremamente culto, com quem tive uma acalorada conversa nos intervalos da ópera “Os Troianos” de Berlioz em Nova Iorque.
Esta displicência a respeito da música erudita é talvez a razão de a estreia da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo no Proms de Londres, um evento extremamente importante para nossa cultura, motivo de orgulho para todos os brasileiros, ter sido tão pouco comentada em nosso país.

Primeiramente o que é o Proms? O Proms é o maior festival de musica erudita do mundo. É chamado também de o mais “democrático” Festival do gênero. Foi fundado em 1895, dura oito semanas, de julho a setembro, e acontece na maioria das vezes no Royal Albert Hall, um auditório extremamente versátil, que comporta 5.544 espectadores. Ele é produzido pela BBC, e apesar da propalada “crise europeia” custa aos cofres públicos ingleses alguns milhões de libras. Neste festival tocam regularmente as maiores orquestras do mundo, como a Orquestra Filarmônica de Berlim, a Orquestra do Concertgebow de Amsterdã, sem falar nas excelentes orquestras inglesas, como a Orquestra Sinfônica de Londres, a Orquestra Sinfônica da BBC, e inúmeros outros conjuntos musicais de diversos estilos. Além das renomadas orquestras, atuam também os mais famosos maestros e solistas da atualidade. O repertório vai desde obras escritas no século XVII até composições do século XXI (sim, elas existem). Espetáculo à parte do Proms é seu público. Apesar de extremamente numeroso o publico do Proms é excepcionalmente silencioso (ai que diferença daqui) e atento. Vale dizer que o setor de plateia do Royal Albert Hall não tem cadeiras. O público fica em pé, e é capaz de acompanhar com atenção e silencio obras às vezes de difícil apreensão e longas, como Sinfonias de Mahler e Bruckner, ou obras complicadas como composições de Schoenberg ou Boulez.

O fato da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, conhecida internacionalmente como Orquestra Sinfônica de São Paulo, estar no Proms equivale a uma medalha de ouro na olimpíada. Pela primeira vez uma orquestra brasileira participa neste festival. Ela e sua maestrina, a americana Marin Alsop, fizeram uma impecável apresentação no Proms no último dia 15. Pude ouvir a apresentação através de um link da BBC que continua disponível. O grande destaque da apresentação foi a execução do Momoprecoce de Heitor Villa-Lobos , tendo como solista o mais famoso musico erudito brasileiro, o pianista Nelson Freire. Aliás, as esparsas presenças do Brasil no Proms aconteceram exatamente através de Villa-Lobos e Nelson Freire. Na última noite do Proms em 2009 o maestro americano David Robertsosn dirigiu uma impecável execução do Choros 10 “Rasga o Coração” de Villa Lobos ( que você pode assistir no youtube) , e Nelson Freire já atuou como solista no Proms de 2010 (igualmente).
A excelência técnica da Osesp é prova de que quando se investe de forma ampla e objetiva os resultados acabam acontecendo. O Estado de São Paulo resolveu arcar com uma despesa enorme para fazer surgir este organismo musical que se destaca internacionalmente. É um exemplo para o país em geral, de que as verbas para cultura e educação deveriam de ser mais do que simples “esmolas”. Nosso país é carente nestas áreas, e os salários de nossos professores são, junto com a corrupção e a violência urbana, problemas dos mais graves que temos. Quem sabe com mais verbas para a educação e para a cultura, um dia o comentarista das olimpíadas não chame Daniel Barenboim de “aquele senhor”.
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