segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Estéticas das periferias – arte e cultura nas bordas da metrópole



No “universo da cultura, o centro está em toda parte”. Com base nesta ideia, formulada pelo jurista Miguel Reale na década de 1970 , organizações públicas e privadas e movimentos culturais de São Paulo promoverão, entre os dias 21 e 30 de agosto, a segunda edição da mostra cultural e do seminário Estéticas das Periferias – Arte e cultura nas bordas da Metrópole. O objetivo do evento é exibir e discutir a cultura feita nas periferias, com foco na produção artística, sua qualidade e originalidade, e não apenas os aspectos sociais a ela relacionados.

Pretendemos aprofundar a reflexão estética pensando a periferia para além das fronteiras geográficas, explicitando a diversidade de periferias, colocando-as no centro do debate. A curadoria da mostra e do seminário é coletiva, delas participaram mais de 50 pessoas, entre artistas, programadores e acadêmicos. A professora Heloisa Buarque de Hollanda (UFRJ) acompanhou o grupo curatorial da mostra e o professor José Guilherme Magnani (Núcleo de Antropologia Urbana – USP) atuou no grupo que concebeu o seminário.

Para o Seminário, a organização do evento pretende atrair artistas, produtores, programadores culturais e gestores públicos. São 250 vagas, com inscrições gratuitas, que estarão abertas de 1º a 21 de agosto, no site do evento. A Mostra visa a um público mais amplo com a expectativa de atrair mais de 20 mil pessoas em todos os eventos.

Leia baixo o manifesto que inspirou o evento.

Manifesto: A periferia tão longe e tão perto

São Paulo, 21 a 30 de agosto de 2012

A Cidade de São Paulo segrega a periferia socialmente, economicamente, esteticamente

Em São Paulo, a força da grana destrói muito mais do que ergue coisas belas, mano Caetano.

Por mais que o povo não queira, a Cidade muitas vezes dá razão a Criolo: “Não existe amor em SP”.

“A periferia nos une pela cor, pela dor e pelo amor”, conclama o poeta Sergio Vaz no seu Manifesto da Antropofagia Periférica.

Apesar das 34 pontes existentes sobre os rios Tietê e Pinheiros, os lados da cidade não se comunicam, justificando o nome da via que corre paralela a seus leitos: Marginal.

“A vida é diferente da ponte pra cá”, diz os Racionais MC’s.

“Nóis é ponte e atravessa qualquer rio”, desafia o poeta Marco Pezão.

A ponte é ao mesmo tempo metáfora do encontro e da separação.  A Mostra Estéticas das Periferias quer a travessia, de lá para cá, de cá para lá, depende de onde se está.

Buscaremos o fluxo, o encontro, o diálogo. Queremos explorar conexões e conflitos, armas tramas urbanas. Artistas do Centro e da Periferia: Uni-vos!

Reiteramos o manifesto oswaldiano:“A alegria é a prova dos nove”.

Oswald pregava em seu manifesto antropofágico: “é preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à ideia de Deus”. Entendemos que é preciso um profundo sentido periférico para se chegar a uma ideia de Centro.

Sem a Periferia não existe o Centro.

Pretendemos deslocar o Centro para a Periferia e a Periferia para o Centro. Inverter a lógica urbana desagregadora. Questionar estereótipos. A periferia tão longe, pode estar perto. Judas perderá as botas nos bairros nobres. Os Jardins terão uma nova trilogia: Jardim Irene, Jardim Miriam, Jardim Ângela. Assim como as três vilas: Mariana, Olímpia e Madalena cederão lugar para Vila Albertina, Vila Brasilândia e Vila Zilda.

Só a arte é capaz dessa subversão. ”No universo da cultura o centro está em toda parte” ensinou o jurista Miguel Reale, frase lapidar que está imortalizada na Praça do Relógio do Campus da USP no Butantã, do outro lado da ponte da Cidade Universitária.

A Mostra Estéticas das Periferias revelará que o circuito das artes da cidade de São Paulo vai muito além do que sugere os guias culturais da grande imprensa, para os quais a cena cultural se restringe a pouco mais de 20 dos 96 distritos da capital.

A arte estará em toda parte, principalmente na periferia, onde o agito cultural é permanente, nas ruas, bares, galpões, praças, sacolões.

Por Antonio Eleilson Leite, coordenador de cultura da ONG
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