quinta-feira, 25 de julho de 2013

Composição como apredizado


A composição é um processo de autoconhecimento, de reaprendizado da função que as velhas disciplinas de criação musical proporcionam na música do passado. A criação, hoje, só pode ser autêntica quando é transgressora de alguma tradição academicamente estabelecida.

O processo de composição implica aprendizagem, saber usar a imaginação e ter os recursos técnicos para fixar idéias por meio da escritura. Não é o mesmo processo da interpretação musical, do tocar e recria a música, que é a decodificação da partitura. Compor tocando é um processo diferente de compor usando a imaginação, o papel e o lápis (ou computador). Quem compõe tocando corre o risco de repetir o convencional e os padrões musicais preexistentes. Esse é um processo, por exemplo, comum na música popular, na qual muitas vezes o intérprete confunde-se com o compositor e na qual o espaço para a invenção é diferente do espaço de invenção da música erudita.

Não se trata de valores de um processo em relação a ouro. A inovação e renovação de linguagem dão-se pelo uso de materiais sonoros inéditos ou pela reciclagem de material em novas combinações. Tudo depende do risco que o compositor está disposto a assumir. “Temos um dever para com a música: é o de inventá-la” disse Stravinsky. Se essa é a meta do compositor, então a invenção torna-se o fator mais importante do aprendizado. Se a meta é manter a tradição, então a invenção se dá ela reciclagem dos materiais e recursos já em uso, que pode ou não ser inovadora.

Por vezes, a limitação auditiva (Beethoven) ou mesmo a inabilidade de tocar bem um instrumento (Berlioz) funciona como estimulo para aventurar-se e m novíssimas praias sonoras.

Um estímulo, já que o discurso sonoro que está sendo criado por meio da escrituras e estrutura por outros parâmetros da imaginação, da estruturação das idéias. AA gestualidade sonora extremamente original e brutal da música de Iannis Xenakis, por exemplo, teve muitas vezes sua origem em processos de cálculos estruturais oriundos da arquitetura, e não do tocar um pano. A música não se faz apenas com sons, mas com idéias que possa produzir e criar novas formas sonoras e conseqüentemente novas maneiras de percepção dessas formas.

Esse tênue limite entre a idéia e o som é a região pela qual os compositores trafegam, alguns com habilidade surpreendente, deixando um legado para a música ocidental. Compositores desajeitados, no sentido de lidar mal com a tradição musical, também deixaram contribuições originais. Desconhecendo  a tradição, usaram a composição

como aprendizado para atingir e experimentar novas paisagens sonoras. No século passado houve um proliferação de compositores que, negando o academicismo, ampliaram definitivamente os limites da música.

Houve novidades tanto nos que restauraram algumas tradições como naqueles que pensavam estar navegando por mares inéditos. Constatou-se que não é o material usado, melodia, harmonia, ritmo, que torna uma musica inovadora. Composição é burlar regras e transgredi-las. É um compromisso quase político com a expansão humana, sem esquecer o que há de consolador na música.

Luciano Berio fez uma comparação do seu fazer musical com o uso que as pedras tiveram nas inúmeras reconstruções da cidade de Jerusalém: em uma época, uma pedra servia a construção de um templo, em outra, servia para calçamento de uma viela. Não que o som de uma flauta tenha mudado tanto desde as épocas mais remotas até os dias de hoje. Não se trata de procedimentos musicais, mas da função que eles tem na sociedade que os ouve, que eles exercem para a alteração da percepção humana.

A música não promove grandes revoluções sociais, mas a percepção de novas formas na mente e na sensibilidade humana pode oxidar e corroer posturas reacionárias do ouvinte passivo, proporcionar novas estruturas de pensamento. Descontextualizar velhos sons, como na parábola das pedras de Jerusalém, permite observar que o reacionarismo acadêmico nas inovações super-contemporâneas nascidas de uma neo-vanguarda revisada.

Assim, penso que a inovação não vem do atonal ou das velhas tríades tonais, mas da relação que a composição tem na vida do compositor, de como  ela expande o seu pensamento, sua imaginação e conseqüentemente sua música, também no meio em que ela é difundida, ouvida e percebida. A postura academicista ode se dar tanto na música superinovadora quanto no resgate do velho do maior, no ensino pouco inteligente do contraponto ou outra disciplina qualquer das escolas de música, que não enxergam o que está na essência dessa forma de escritura musical. Portanto, acredito que a composição é um processo de autoconhecimento, de reaprendizado da função que as velhas disciplinas de criação musical proporcionaram na música do passado e o que elas poderiam desvendar nos dias de hoje. A criação só pode ser autêntica quando e transgressora de alguma tradição academicamente estabelecida.

Fernando Guimarães Álvares.
Professor de composição

 
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