quinta-feira, 11 de julho de 2013

O prazer, origem e perdição do ser humano


A incansável necessidade de aprender para, depois, transmitir de forma límpida e elegante o que conseguiu captar ao maior número possível de pessoas levou o jovem Octavio Paz a abordar o Marquês de Sade ainda nos anos de sua juventude. O curioso e o objeto de sua curiosidade têm entre si duas semelhanças fatídicas: ambos foram escritores importantes no panorama da cultura universal, cada um no seu tempo, cada um com seus temas.

Mas duas fatalidades separam os dois de forma irremediável e para sempre. Apesar de ter sua obra divulgada, a ponto de se haver tornado um adjetivo (de seu título deriva a família de vocábulos que definem o prazer auferido da dor, sadismo, sádico, etc.), o francês continua sendo um escritor mal lido. Não propriamente por ser um mau escritor, mas, certamente, por escrever de forma tortuosa e complexa. Ler Sade não é uma tarefa propriamente sádica, mas, sobretudo, masoquista – seus textos, engendrados numa língua, a francesa, apropriada aos apuros da elegância estilística, prometem as delícias do prazer físico e terminam entregando as penas da dor espiritual. Já Octavio Paz, mesmo escrevendo no idioma barroco por excelência, o castelhano, escreve com precisão de relojoeiro e estilo de esgrimista. O texto de Sade é turvo e torturado. O de Paz, límpido e harmonioso. Num século de grandes prosadores, não é fácil encontrar quem se lhe ombreie em deleite e profundidade.

O marquês foi um injustiçado – ou, no mínimo, um incompreendido, pois a distância entre o que inspira a tradição oral sobre seus textos e a forma que de fato eles têm produziu uma mitologia que cada vez distancia mais seu leitor da verdade que o autor quis transmitir. Já de Paz não se pode falar assim. Se teve grande brilho, também mereceu extenso reconhecimento, que culminou com o Prêmio Nobel da Literatura. E foi o justiçado Paz quem fez questão de fazer justiça a Sade, dissecando sua obra, revirando seu pensamento pelo direito e pelo avesso e apresentando-o ao leitor da forma que conhece como poucos – simples, mas completa; clara, mas multiforme. O marquês era um homem afável e doce, mas pagou caro pelas perversões que descreveu em seus textos: foi preso e maltratado, um pioneiro entre os mártires perseguidos pela ousadia da liberdade de pensar e expressar seu pensamento por escrito, um habitante do Arquipélago Gulag avant la lettre.

Talvez por haver sido um doce intransigente, o marquês, síntese de todos os devassos, terminou por instigar o pacífico e casto poeta mexicano ao longo de toda a sua trajetória de escritor. Nada melhor do que Paz falando de Paz. Na introdução de Um mais além erótico: Sade, ele deixou registrados três paradas dessa trilha: “Por volta de 1946, descobri a figura de Donatien Alphonse François, marquês de Sade e longínquo descendente de Laura de Sade, cantada por Petrarca. Eu o li com assombro e horror, com curiosidade e desagrado, com admiração e reconhecimento. Em 1947, escrevi um poema entusiástico; em 1960, um ensaio, um exame de suas idéias; em 1986, outro ensaio, uma recapitulação do que sinto e penso de sua pessoa e obra. Este pequeno livro abrange essas três tentativas de entendimento”.

É provável que o próprio poeta, ao lançar o livro de apenas 120 páginas em tipos graúdos sobre manchas gráficas menores do que o padrão, tivesse esgotado o assunto. Mas ele o perseguiu até a confecção, já no fim da vida, de uma obra-prima de mais fôlego e maiores ambições, A dupla chama: amor e erotismo.

Graças à devoção do editor Pedro Paulo de Sena Madureira ao autor (que o levou a lançar no Brasil a única tradução existente no mundo do portentoso ensaio dele sobre Sóror Juana Inés de la Cruz) e ao trabalho competente e também devotado do tradutor Wladir Dupont, que mora no México sem nunca haver deixado o Brasil, é possível traçar um paralelo entre as duas obras. É o caso de dizer que Sade prepara A dupla chama, como este pressupõe a existência do primeiro. No ensaio que dá título ao livro, escrito no México em 1960, Paz já deixou claro haver entendido o que desenvolveria pouco antes de morrer. “A sexualidade”, escreveu, já então, “é geral; o erotismo, singular”.

Segundo o poeta, “o homem imita o caráter complexo da sexualidade animal e reproduz seus gestos graciosos, terríveis ou ferozes porque deseja voltar ao estado natural. E, ao mesmo tempo, essa imitação é um jogo, uma representação. O erotismo é o reflexo do olhar humano no espelho da natureza. Assim, o que distingue o erotismo da sexualidade não é a complexidade, mas a distância”. Para ele, “o ato erótico nega o mundo – nada real nos rodeia, exceto nossos fantasmas”. E mais ainda: “O erotismo não é uma simples imitação da sexualidade – é sua metáfora”.

O que aproximou Paz do marquês foi a descoberta da originalidade do francês, que consiste, em sua opinião, “em ter pensado o erotismo como uma realidade total, cósmica, quer dizer, como a realidade”, produzindo aquilo que ele definiu como “uma utopia ao contrário” (“A sociedade de Sade não é só uma utopia irrealizável; é uma impossibilidade filosófica – se tudo é permitido, nada é permitido”, arremata). Paz o compara a Lucrécio, Havelock Ellis e Sigmund Freud, que, de acordo com ele, “abandona o campo da observação médica para se arriscar na contemplação da vida como um diálogo mortal entre Eros e Tânatos”.

Seria inútil competir em clareza e beleza com Octavio Paz. Mais por isso do que para ceder ao comodismo de simplesmente citá-lo, reproduzo, parcialmente, um parágrafo do miolo desse pequeno ensaio genial, por acreditar que ele resume o verdadeiro entendimento sobre a importância da obra de Sade na crítica sistemática do erotismo, que está presente na criação e na destruição do ser humano.

Ele escreveu: “A supressão da dualidade criação-destruição, melhor dizendo, sua fusão num movimento que as abraça sem suprimi-las é mais que uma visão filosófica da natureza. Heráclito, os estóicos, Lucrécio e muitos outros pensavam da mesma forma. Ninguém, porém, havia aplicado com o rigor de Sade essa idéia ao mundo das sensações. Prazer e dor também são nomes, não menos enganosos que os outros. Essa frase é uma mera variante da moral estóica; nas mãos de Sade é uma chave que abrirá portas condenadas há muitos séculos. Por um lado, meu prazer se alimenta da dor alheia; por outro, não contentes com gozar diante dos padecimentos dos outros, meus sentidos exasperados também querer sofrer. A mudança de signo (o bem é mal, a criação é destruição) se opera com maior precisão no mundo sensual – o prazer é dor e a dor, prazer”.

Isso é verdadeiro e também terrível. No ensaio que escreveu em 1986,Cárceres da razão, Paz foi além: “o prazer é o agente que guia e move os atos e pensamentos dos homens e das mulheres; o prazer é intrinsecamente destruidor”. E no poema mais antigo, O prisioneiro, escrito em Paris em 1947, Paz intuiu o resumo de tudo num verso genial: “O sonho é explosivo. Estala. Volta a ser sol”.


José Nêumanne
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