sexta-feira, 17 de maio de 2013

A vida oculta das pessoas da sala de jantar



O romance 'O Casamento', de Nelson Rodrigues, chega ao palco com a mesma virulência das suas peças

Casamento pede festa mesmo que fingida. Ao final do espetáculo, quando todo o elenco se junta no grande palco do TUCA em celebração emoldurada pelo cenário de André Cortez, expressivo em sua insinuação de labirinto, a representação ganha a monumentalidade estranha dos desastres. É uma festa de arromba, embora as pessoas na sala de jantar estejam mais ocupadas em nascer e morrer. O tema sempre atraiu o dramaturgo Nelson Rodrigues e está no cerne de suas peças. Mas um dia, na sua atividade paralela de folhetinista desbragado sob o pseudônimo de Suzana Flag, resolveu rasgar a fantasia e com o próprio nome jogar no papel todo exagero naturalista - e assim nasceu o romance O Casamento. A obra causou a polêmica esperada e foi proibida.
O programa atual da peça dá ao acontecido um tom vitimista, ao mesmo tempo que chama Castelo Branco de presidente e não diz qual Ministro da Justiça assinou a proibição. Castelo era chefe do regime militar imposto ao país e teve três ministros da justiça. Os dois primeiros, políticos liberais, demitiram-se logo do cargo (Milton Campos e Mem de Sá), sendo o jurista de renome Carlos Medeiros quem se deu ao trabalho ideológico "moralizante" de impedir o livro. A arbitrariedade não melhora uma obra. A democracia e o romance voltaram e ninguém mais pensa no ilustre censor. Reparos e elogios ao texto são assuntos de arte e cultura. O Casamento tem o apelo das frases de efeito, imagens delirantes, ênfase aberta no grotesco e no caricato divertido, opostos que Nelson Rodrigues manipula com notável maestria, só que aqui não isentos de derrapadas no puro e simples mau gosto.
Como sempre, temos uma família impecável até que tudo venha abaixo em incestos e outras pulsões sexuais inesperadas e arroubos morais que são puro verniz. A mocinha e o noivo estão distantes das figurinhas que enfeitam o bolo e os filmes felizes. Canalhas fundamentais gotejam em todos os cantos e uma vingança avassaladora será perpetrada pelo filho surrado metódica e sadicamente pelo pai que o descobre homossexual. Enfim, um bando de ensandecidos e patéticos ostentando aparências castas entre atos tenebrosos.
O espetáculo de Joahana Albuquerque, diretora e adaptadora do original, é esforço e risco de elevar a outro patamar o que é subliteratura deliberada. Com um elenco homogêneo que reúne talentos comprovados e novos intérpretes, a representação mantém quase sempre a tensão que capta o público. Os monólogos e diálogos falsamente morais, as confissões improváveis e os óbvios ululantes explodem em cascatas. A montagem tem instantes de sexo semi-explícito que só podem ser vistos como experiência pouco feliz de lidar com a pornografia ao colocar a nu o que Nelson Rodrigues insinua. Cenas feias e destituídas de consistência dramática. Registre-se a brincadeira, mas se fosse suprimida haveria ganho estético e de tempo.
A interpretação de Renato Borghi tem a força de um talento natural para a insolência embora ele saiba dosá-la com o amargo e o quase trágico. Evita a linearidade debochada de Élcio Nogueira Seixas, presença exuberante mas com a tentação do maneirismo autocomplacente. Élcio tem mais recursos como ator. A encenação é mais favorável às intervenções masculinas, mesmo que pontuais (o monsenhor de Mauricio de Barros). Daniel Alvim assegura dois papéis chaves que provavelmente renderiam melhor sem a violência pitbull de um e a afetação ostensiva do outro. Há perda de verossimilhança. As mulheres deste casamento estão estranha ou sintomaticamente secundárias no palco, à exceção convincente de Regina França. O conjunto de tipos e situações, no entanto, tem coerência mínima, ocasião em que Joahana Albuquerque demonstra controle do projeto artístico que reúne os grupos Bendita Trupe e Teatro Promíscuo, nomes tão opostos que parecem mais uma irreverência de Nelson Rodrigues.
O Estado de São Paulo

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