terça-feira, 7 de agosto de 2012

Música e Memória nos 164 anos da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro


                              
A tradicional semana de concertos comemorativos está repleta de novidades este ano. Entre elas uma missa de José Maurício Nunes Garcia que há mais de um século não é executada.

Clássica e romântica, sacra e profana, erudita e popular, cosmopolita ou nacionalista, a produção musical brasileira compreendida entre o final do século XVIII e a primeira metade do XX é tema dos cincos concertos que comemoram o 164º aniversário de fundação da Escola de Música (EM). De 13 a 17 de agosto, a série oferece uma oportunidade impar para o público apreciar um painel, ao mesmo tempo abrangente e diversificado, de momentos fundamentais dessa trajetória cultural que, “tendo início no outono do período colonial, atravessa o Império, a República Velha e a Era Vargas para, finalmente, alcançar ao que concebemos hoje como o Brasil moderno”, como lembra João Vidal, diretor adjunto do setor artístico e um dos organizadores do evento.
Um enorme patrimônio musical forjado, faz questão de acrescentar, em condições sociais e políticas “cambiantes”, mas que marca as falas com que pensamos nosso passado e as formas como construímos nossas identidades como povo e nação.
Os concertos, que ocorrem no Salão Leopoldo Miguez, sempre às 19h, têm entrada franca e coincidem com a realização do III Simpósio de Musicologia (leia matéria) promovido pelo Programa de Pós-graduação em Música da UFRJ (PPGM). Os intérpretes serão alunos, técnicos e professores da Escola, além de convidados. Entre estes, a Orquestra Acadêmica da Unesp, o soprano Juliana Franco, o tenor André Vidal e o coral da Associação de Canto Coral.

Fundada em 13 de agosto de 1848, com o nome de Conservatório de Imperial, a EM é a mais antiga instituição dedica ao ensino de música do país, uma atividade até então restrita a cursos e professores particulares.  Tornou-se Instituto Nacional de Musica em 1890 e foi, durante o Estado Novo, incorporada a então Universidade do Brasil, como Escola Nacional de Música.  A atual designação remonta a 1965, quando a universidade passeou a se chamar UFRJ. Em 1980, mais um pioneirismo, implantou o primeiro curso de pós-graduação em música do país.

Missa a Quatro

No concerto de abertura das comemorações, a Orquestra Sinfônica da UFRJ (OSUFRJ) apresenta um repertório muito especial que inclui a Abertura em ré maior, de Castro Lobo, cujo manuscrito se encontra no Museu da Inconfidência em Ouro Preto; a Ave Regina Caelorum, de Lobo Mesquita, reconstrução de Sérgio Magnani a partir de originais que estão no Museu da Música de Mariana; O Vere Christe, da Coleção Curt Lange do Museu da Inconfidência em Ouro Preto; e O Salutaris Hostia, de Marcos Portugal – obra programada para homenagear os 250 anos de nascimento do compositor luso-brasileiro.

Mas o destaque do programa é mesmo a Missa a Quatro Vozes, CPM 11, de José Maurício Nunes Garcia, que a musicóloga Cleofe Person de Mattos, maior estudiosa da obra do padre compositor, sugere ter sido criada entre 1808 e 1809. O manuscrito se encontra na Biblioteca Alberto Nepomuceno (BAN) da Escola de Música e faz parte da parte da Coleção Bento das Mercês, antigo músico da Capela Imperial. Comprado pelo governo federal no final do séc. XIX à sua sobrinha e herdeira, Gabriela Alves de Sousa, o acervo foi doado ao então Instituto Nacional de Música.

“Leve, graciosa, com introduções longas e discreta tendência ao virtuosismo, nos solos”, segundo Person de Mattos, que identificou ainda “acentos seresteiros” em alguns dos seus solos de flauta, a missa ganhou edição de Ernani Aguiar, que a regerá depois do silêncio de mais de um século.

− Obra praticamente inédita. Será a sua primeira audição integral desde o século XIX, afirma com entusiasmo André Cardoso, diretor da Escola e maestro que divide com Aguiar o comando da OSUFRJ.

O baixo instrumental foi reconstruído pelo compositor e instrumentista da OSUFRJ Sérgio Di Sabbato. Os solistas serão os sopranos Juliana Franco e Michele Menezes, além do tenor André Vidal. A apresentação reunirá o Coro da Associação de Canto Coral, instituição fundada por Pearson de Mattos que completa 70 anos, e o Coral da Escola de Música, ambos dirigidos pela maestrina Valéria Matos, docente da EM.

Mais novidades

Os outros concertos da semana também estão cheios de atrações. No dia 14, terça-feira, o Trio UFRJ apresenta obras que marcam, como aponta Vidal, um momento “crítico” na música brasileira. O da “transição entre o Romantismo tardio de feições europeias do fin-de-siècle e as manifestações mais modernas de cunho nacionalista dos anos de 1920”, esclarece. No programa, peças de Henrique Oswald, Francisco Braga e Francisco Mignone, sequência de autores que assinalam essa trajetória.

No dia 15 o destaque é um aspecto muito próprio da cultura brasileira: o entrelaçamento entre a música das ruas e a dos salões provocado pela chegada, em março de 1808, da Família Real ao Rio — o que redefine o panorama artístico da cidade. De uma forma como jamais concebível no continente europeu, a cultura erudita da aristocracia interagiu com as práticas musicais populares e produziu gerações de modinheiros, seresteiros, chorões e pianeiros.

Uma trajetória que vai desde Joaquim Manuel da Câmara, primeiro autor popular a ter um tema aproveitado em uma peça de concerto, até Pixinguinha, momento em que a nascente indústria fonográfica passa a impactar a criação popular. Entre eles, compositores como Carlos Gomes, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, João Pernambuco e Patapio Silva, entre outros.

Encerra a semana dois recitais dedicados a formações musicais específicas. No dia 16, o Art Metal Quinteto apresenta a produção brasileira para metais e, no dia seguinte, a Orquestra Acadêmica da Unesp, sob a batuta de Lutero Rodrigues, executa obras de compositores do nosso romantismo que na virada do século XIX para o XX, acompanhando tendências europeias, redescobriram a orquestra de sopros. Entre eles, Alexandre Levy, Leopoldo Miguez, Alberto Nepomuceno, Francisco Braga e Henrique Oswald.
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