quinta-feira, 12 de abril de 2012

Antonio Meneses vive momento virtuoso na carreira, entrevista cedida ao Valor


O violoncelista pernambucano Antonio Meneses, de 54 anos, está em São Paulo para três concertos com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), de quinta a sábado na Sala São Paulo (onde sola o concerto de Dvorák regido pela primeira vez por Marin Alsop) e hoje, para um concerto de câmara com obras de Villa-Lobos, Shostakovich e César Franck ao lado do pianista José Feghali.
 Feliz, anuncia ao Valor que já gravou, em janeiro, "o primeiro CD da minha parceria com a pianista portuguesa Maria João Pires, radicada no Brasil, que será lançado ano que vem pela Deutsche Grammophon, com obras de Schubert, Brahms, Mendelssohn e Bach". Meneses deve comemorar mesmo, pois fecha um círculo virtuosíssimo.
 Depois de 30 anos, volta a lançar um CD pela Deutsche Grammophon, a mais ilustre das gravadoras clássicas, que possui o famoso selo amarelo em todas as suas capas. É que, em 1982, ele estreou na DG, como os insiders a chamam, já no topo: gravou o concerto duplo de Brahms ao lado da violinista Anne-Sophie Mutter e a Filarmônica de Berlim, regida por Herbert Von Karajan. Isso aconteceu logo após ter vencido contra todas as probabilidades uma penca de russos (e dezenas de outros violoncelistas do mundo inteiro) no Concurso Internacional Tchaikovsky de Moscou - o mais importante concurso musical do planeta.
 Meneses confessou, ainda em 1982, que não se sentira à vontade com a interpretação de Karajan. Sua timidez bem pode ter sido o motivo de não ter deslanchado logo em seguida na carreira internacional, mesmo com o prêmio musical mais cobiçado no mundo em sua bagagem.
Quem o conhece bem sabe que nada o abala. Ele continua calmo e introspectivo. E nestes últimos 30 anos construiu com paciência uma carreira sólida e notável. Galgou degraus consistentes. Registrou sua visão pessoal da "bíblia" do instrumento, as seis suítes para violoncelo solo de Bach nos anos 1980, no Japão; e, já no século XXI, revisitou-as de modo definitivo, em deslumbrante e amadurecida interpretação (disponível em álbum duplo nacional do selo Clássicos). Associou-se à última formação do lendário Beaux Arts Trio, que durante meio século foi liderado pelo maravilhoso pianista Menahem Pressler. Gravou vários CDs com o trio para a Philips. Mas tem preferência clara pela integral das sonatas para violoncelo e piano de Beethoven que registrou com Pressler já octogenário (também disponíveis em álbum duplo nacional).
Ele encerrou semana retrasada em Paris uma turnê com a Orquestra Nacional da França sob regência de Daniele Gatti em várias cidades suíças (Zurique, Berna, Lucerna e Genebra). "Depois do Brasil, irei tocar e dar masterclasses pela primeira vez em Taiwan e em seguida realizarei uma turnê no Japão" - onde tem imenso prestígio. Meneses deu esta entrevista ainda antes de desembarcar em São Paulo, o que aconteceu no sábado dia 7. A seguir, os principais trechos:
Valor: Como está seu ritmo de concertos e gravações nesta temporada 2012?
Antonio Meneses: Tenho dois CDs novos no forno, um que sai agora em maio e outro no ano que vem. O primeiro é um CD com dois concertos: o primeiro é arquiconhecido, do inglês Edward Elgar [1857-1934], mas meu entusiasmo maior é por um concerto inédito, primeiríssima gravação mundial, do austríaco Hans Gal [1890-1987]. É um compositor de origem judaica que só está sendo redescoberto agora. Sua obra é de primeira grandeza, muito romântica e de incrível beleza. A orquestra será a Northern Sinfonia, com a qual gravei também os dois concertos de Haydn e o do pernambucano Clóvis Pereira, e o regente é o nosso querido Claudio Cruz [spalla da Osesp], que fez um magnífico trabalho. Sairá pela Avie no mercado internacional e pelo selo Clássicos no Brasil. Foi gravado em janeiro passado.
Valor: O segundo CD deve ter significado especial para você...
Meneses: Sim. Têm sido muito importantes os recitais na Europa com Maria João Pires, momentos mágicos dessa temporada. Este CD, também gravado em janeiro, é o primeiro da minha parceria com ela.
Valor: Você passa duas semanas inteiras com a Osesp neste ano. Além dos concertos desta semana, você retorna em novembro, e está sendo anunciado como "artista em residência da Osesp".
Meneses: Os concertos com a Osesp são três, além do recital com o Feghali. Existe muito mais o conceito de compositor em residência. O de artista/solista é algo novo para mim, mas não deixa de ser interessante, pela diversidade da programação, já que tocarei obras conhecidas, como o concerto de Dvorák, e uma inédita, como o concerto do Marco Padilha em novembro. Isso tudo além da música de câmara em forma de recital. Uma coisa que me agrada é tocar o segundo violoncelo do maravilhoso Quinteto de Schubert.
Valor: Como nasceu o teu interesse na obra do compositor campineiro Marco Padilha?
Meneses: Nos últimos anos tenho me voltado muito para a música brasileira. O concerto do Padilha foi terminado já há uns três ou quatro anos e passou por diversas etapas de criação. É uma obra em um movimento contínuo com acompanhamento de uma orquestra grande. É tecnicamente bastante difícil, e por culpa minha, pois uma versão anterior me pareceu fácil demais e por isso pedi ao compositor que explorasse melhor as possibilidades do instrumento. Exige muito do solista.
Valor: Você já tocou com José Feghali antes ou esta apresentação da terça será a estreia de um novo duo? E com a nova titular da Osesp, também será a primeira vez?
Meneses: Em princípio, este será o meu primeiro recital com o Feghali. Ainda quando garotos, tocamos uma vez no Rio de Janeiro uma sonata de Beethoven, mas acho que ele mesmo concordaria que esse não valeu. O de São Paulo, portanto, será nosso "début". Também será minha primeira vez com Marin Alsop. Só a conheço de nome e pela ótima reputação que tem. Estou realmente feliz com essa parceria e tenho certeza de que será uma ótima experiência para mim.
Valor: O que te agrada mais hoje: ser solista com orquestra ou fazer música de câmara?
Meneses: Gosto das duas coisas, mas o que mais importa é a qualidade musical e artística da parceria, tanto no caso de concertos com orquestra como na música de câmara. Confesso que já participei, por exemplo, de concertos de música de câmara que me deixaram muito infelizes, pela falta de ensaios e de vontade de todos os participantes para se atingir o máximo possível de expressão musical. No reino das orquestras, acontece muito de regentes deixarem só aquela última meia horinha do ensaio para trabalhar a obra com o solista, o que demonstra descaso para com a música em geral. É impossível atingir assim um nível musical e técnico mais alto!
Antonio Meneses e José Feghali
Série de Câmara
Sala São Paulo
praça Júlio Prestes, 16, SP,
tel. (11) 3223-3966 
R$ 54 a R$ 62
Marin Alsop rege Bernstein - Antonio Meneses (artista em residência)
Sala São Paulo;
qui. (dia 12) e sex. (dia 13), às 21h; sáb. (dia 14), às 16h30.
R$ 26 a R$ 149
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