quinta-feira, 26 de abril de 2012

PROJETO MEMÓRIA MUSICAL APRESENTA EM PRIMEIRA AUDIÇÃO MUNDIAL OBRAS SINFÔNICAS DE HENRIQUE OSWALD, JOSÉ SIQUEIRA E JOÃO GOMES DE ARAÚJO

Serão dois concertos, com a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Lírico, sob regência do maestro Victor Hugo Toro − no Theatro Municipal, na sexta-feira 27 de Abril, às 21 horas, e no domingo, 29 de Abril, às 11 horas.
Henrique Oswald, José Siqueira e João Gomes de Araújo são os compositores escolhidos em nova edição do Projeto Memória Musical. Liderado pelo violinista Erich Lehninger e pela Nery Cultural, desde 1998 o projeto vem resgatando e editando obras de compositores brasileiros.
        Nesta que é a oitava edição do Projeto Memória Musical, obras restauradas desses três compositores e até aqui totalmente inéditas serão apresentadas em dois concertos da Orquestra Sinfônica Municipal, sob regência de Victor Hugo Toro, nos dias 27 e 29 de Abril:

•"Festa", de Henrique Oswald
•"Paisagem Sonora - Concerto para violino e orquestra", de José Siqueira − sendo Erich Lehninger o solista

•e "Sinfonia nº 4", de João Gomes de Araújo.
        Depois de restauradas, as partituras dessas obras passaram por minuciosa revisão pelo maestro e professor Henrique Morelenbaum. E, e especificamente no caso do concerto de Siqueira, o próprio Lehninger se encarregou da revisão da parte para violino.
Trabalho de Garimpo − O Projeto Memória Musical é resultado de pesquisas do violinista e maestro Erich Lehninger, e da iniciativa empresarial da Nery Cultural.

        O projeto vem resgatando manuscritos de compositores da música erudita brasileira e colocando-os ao alcance de músicos nacionais e internacionais − de 1998 até hoje foram recuperadas e restauradas partituras de 24 obras sinfônicas, de compositores como Alberto Nepomuceno, Leopoldo Miguez, Lorenzo Fernandez, Brasílio Itiberê, Francisco Mignone, Alexandre Levy, Hekel Tavares, Radamés Gnattali e Guerra Peixe, além dos antes mencionados.

        Erich Lehninger afirma que, em mais de 140 anos de produção de música erudita no País − é a partir dos anos 1870 que efetivamente começa a música sinfônica brasileira −, não há no Brasil edições razoáveis nem mesmo das peças mais famosas do vasto e valioso repertório brasileiro. Ele acrescenta: "Também não existem edições musicologicamente elaboradas com relatos críticos sobre as fontes. É um trabalho de garimpo e muitos dos velhos manuscritos encontram-se em precário estado de conservação, o que significa o risco de perda desse inestimável acervo".
        "Nosso projeto transforma manuscritos de difícil manuseio e leitura em um conjunto de partituras digitalizadas e totalmente revisadas, possibilitando a execução das obras por orquestras do Brasil e de outros países", diz Anna Nery de Castro, diretora da Nery Cultural.

        Ela conta que depois de digitalizadas e revisadas, essas “obras-primas que estavam na gaveta” são enviadas para o Banco de Partituras de Música Brasileira, da Academia Brasileira de Música, onde podem ser obtidas por todos os interessados − através do site abmusica.org.br ou email para bancodepartituras@abmusica.org.br.
        Além disso, as obras recuperadas são sempre apresentadas em concertos, como acontece agora.

        O Projeto Memória Musical tem apoio do ProAC-Lei Estadual de Incentivo à Cultura, Governo do Estado de São Paulo.
Ritmos marcantes, memoráveis − Henrique Oswald (Rio de Janeiro, RJ, 1852 - Rio de Janeiro, RJ, 1931), compositor, pianista e concertista, pode ser considerado o mais refinado, aristocrata e austero dos grandes românticos brasileiros.

        Em 1868 foi para Florença, na Itália, onde viveu por mais de 30 anos e escreveu a maior parte de sua obra. Regressou ao Brasil em 1903, para substituir Alberto Nepomuceno como diretor do Instituto Nacional de Música, mas logo em 1906 demitiu-se para dedicar-se ao ensino do piano e à composição. Suas obras, sobretudo seus trios, quartetos e quintetos são notáveis pela perfeição de feitio e equilíbrio.
        Um dos mais importantes compositores brasileiros da virada dos séculos 19/20, por jamais ter se engajado ao nacionalismo acabou sendo relativamente esquecido. O fato é que hoje se conhece sua obra pianística e um pouco de suas peças de câmara, mas quase nada das obras para orquestra.

        É o caso do poema sinfônico "Festa", escrito em 1885, sua segunda obra orquestral. A peça tem ritmos marcantes, memoráveis, utilizando, com um toque pessoal, recursos do impressionismo francês − na maneira de instrumentar, no modo de organizar o material harmônico, melódico, contrapontístico. Composição para grande orquestra, a obra tem ainda a participação de um coro, cantando uma letra de caráter cívico.
Nacionalismo nordestino − José de Lima Siqueira (Conceição, PB, 1907 - Rio de Janeiro, RJ, 1985) foi maestro e compositor e teve intensa presença como líder da classe musical brasileira − fundou, entre outras entidades, a Academia Brasileira de Música, a Ordem dos Músicos do Brasil e a Orquestra Sinfônica Brasileira. Foi professor da Escola de Música da Universidade do Brasil (hoje da UFRJ).

        Siqueira teve brilhante carreira como compositor e regente no Brasil e no Exterior, regendo intensivamente nos Estados Unidos (Orquestra da Filadélfia), Europa e União Soviética − esteve por várias vezes em Moscou, a partir do momento em que, por sua militância comunista, o regime militar de 1964 o aposentou.
        Sua produção soma cerca de 300 composições, de todos os gêneros, e nas quais usa uma linguagem nacionalista regional: óperas, sinfonias oratórios, poemas sinfônicos, obras concertantes, peças de camara e solo, e ainda dezenas de canções. Utiliza sem rodeios uma linguagem nacionalista regional em obras de excelente fatura técnica.

        Seu "Concerto nº 3 para violino e orquestra", composto em 1972, foi dedicado a um dos maiores virtuoses soviéticos do século 20, Leonid Kogan. O concerto leva o subtítulo “Paisagem Sonora” e foi escrito para grande orquestra. No concerto o solista será Erich Lehninger.
         José Siqueira foi um nacionalista fortemente enraizado no universo nordestino. "É relativamente conservador estilisticamente, mas tem uma maestria admirável", afirma o Erich Lehninger, músico que tem uma experiência direta com Siqueira, tendo tocado suas sinfonias com regência do próprio compositor.

Brasilidade latente − João Gomes de Araújo (Pindamonhangaba, SP, 1846 - São Paulo, SP, 1943), professor, regente e compositor, viveu sucessivamente em sua cidade natal, no Rio de Janeiro, em Milão (Itália) e finalmente em São Paulo − em 1906 participou do grupo que fundou o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, tornando-se professor da instituição por muitos anos. Dedicou-se intensamente à composição, sendo autor de várias óperas, missas, marchas, canções e ainda de seis sinfonias, estas escritas entre 1899 e 1923.
         Sua Sinfonia n° 4, obra em quatro movimentos, foi composta 1904 e revela uma “brasilidade latente”, produto do momento de transição do romantismo para o nacionalismo. As linhas melódicas, por exemplo, parecem querer assumir-se como brasileiras, apesar da moldura europeia.
Postar um comentário