terça-feira, 17 de abril de 2012

Música antiga no século XXI


O II Festival de Música Antiga da UFRJ ocorrerá na EM, 23 a 27 de abril, com o tema "a interpretação da música antiga no século XXI". Além de concertos diários, sempre às 19h, no Salão Leopoldo Miguez, contará com mesas-redondas e masterclasses de 15h30 às 18h, em dias alternados, na Sala da Congregação. A curadoria é da professora Patrícia Michelini, que leciona flauta doce e adiantou o assunto a O Leopoldo.

Professora, inicialmente, era chamada de música antiga a produção até o século XVIII, dos períodos Medieval, Renascentista e Barroco. Esse conceito mudou?
É importante fazer uma distinção entre música antiga e movimento da música antiga. A música antiga, para usar uma definição que considero apropriada, seria aquela que não teve uma continuidade de execução em períodos posteriores. As obras do período Clássico e, sobretudo, as do século XIX, foram executadas em público em suas épocas e, nos períodos posteriores, frequentaram continuamente as salas de concerto. Já obras do Barroco e períodos anteriores, com algumas exceções, foram realizadas unicamente nos períodos em que surgiram. Para que voltassem aos palcos houve a necessidade de um resgate, inicialmente de interesse musicológico, depois artístico; por isso se enquadram na categoria de música antiga.

E o movimento de música antiga?
A iniciativa surgiu na década de 1960 em alguns países da Europa. Seus adeptos propunham uma nova leitura do repertório histórico, especialmente do Barroco, procurando recuperar os parâmetros de interpretação originais, utilizando instrumentos históricos (ou cópias), o diapasão corrente, estudando os tratados da época para entender como os compositores e intérpretes concebiam sua música. Trata-se, portanto, de um conceito de interpretação, que, grosso modo, se opõe àquele em que o músico aborda o repertório de épocas passadas tomando como parâmetro características estilísticas e sonoras de seu próprio tempo. O conceito desenvolvido pelo movimento é conhecido atualmente como interpretação historicamente orientada, e pode ser aplicado a repertório de épocas diversas. No festival, vamos abordar principalmente a música do período Barroco e discutir a forma de interpretá-la nos dias de hoje.

Pode comentar a música antiga brasileira?
Essa é uma história à parte! Se compararmos como as pesquisas sobre o repertório antigo europeu se desenvolveram nas últimas décadas, vamos constatar que o resgate da música antiga brasileira ainda é muito recente, e só ocorre de maneira mais científica e consistente a partir da década de 1990. A primeira questão é justamente identificar esse repertório. Numa próxima etapa, entra em discussão a maneira como esse repertório pode ser interpretado. Seriam adequados os parâmetros europeus contemporâneos? A música de um compositor como Lobo de Mesquita, ativo na segunda metade do século XVIII, pode ser interpretada como a de Haydn, que viveu na mesma época? Há muito ainda o que discutir e a mesa do dia 24 será uma boa ocasião para isso.

Como serão as aulas e debates?
Teremos também docentes de universidades públicas de Goiânia, Curitiba e São Paulo. Além da mesa do dia 24, que tratará do repertório e da interpretação da música antiga brasileira, no dia 26 reuniremos professores que desenvolvem projetos na área em diferentes instituições. A masterclass do dia 25, da professora Silvana Scarinci, tem como alvo estudantes de violão que tocam nesse instrumento música originalmente composta para alaúde e teorba, e que desejam entender melhor como a transcrição é realizada. A do professor David Castelo, dia 27, é destinada a cantores e instrumentistas de todos os níveis que buscam maior embasamento para a interpretação do repertório barroco.

Como serão os concertos?
O público poderá acompanhar, sobretudo, o trabalho desenvolvido por grupos ligados às universidades federais do Rio, especializados ou não em música antiga. Na abertura, dia 23, a Orquestra Sinfônica da UFRJ, sob direção do professor Daniel Guedes, dedicará um programa a Bach, Vivaldi e Biber, com solos de violino do próprio Daniel e de Gabriela Queirós. Teremos também o Conjunto de Música Antiga da UFF, a Orquestra Barroca da UNIRIO, a Camerata Sul Tasto e encerramos com o Flustres Ensemble.

Qual a importância da UFRJ fazer um evento como esse?
As universidades, de maneira geral, proporcionam eventos interessantes por equilibrarem atividades artísticas e acadêmicas. A Escola de Música reconhece a importância da área de música antiga e tem iniciativas para seu desenvolvimento. Oferece o bacharelado e pós-graduação em cravo, cursos conduzidos de maneira brilhante pelo professor Marcelo Fagerlande. Assim, a instituição vai cumprindo seu papel de ofertar o máximo de possibilidades aos alunos, sempre zelando pela formação crítica e de qualidade.

Serviço:
São cinco vagas (solistas ou grupos) para cada masterclass, sendo que as inscrições estarão abertas a partir do dia 09 de abril, no Setor Artístico da EM – Rua do Passeio, 98, Lapa - Rio de Janeiro – RJ, CEP: 20.021-290. Para os demais eventos do Festival não há inscrições

Maria Celina Machado   
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