terça-feira, 18 de setembro de 2012

Villa-Lobos para ouvir e ver de joelhos


Quarteto Radamés Gnattali 

O lançamento em DVD e Blu-ray de A Integral dos Quartetos de Cordas de Heitor Villa-Lobos pelo Quarteto Radamés Gnattali, do Rio de Janeiro, é algo de tal importância, que por si só já mereceria um grande elogio. Mas os motivos de festejarmos este lançamento vão bem além de seu ineditismo. O cuidado na produção é tal que temos de nos deter em alguns detalhes, todos fascinantes.
Além da altíssima qualidade musical do quarteto Radamés Gnattali, as filmagens retratam cenários históricos do Rio de Janeiro, cidade natal de nosso maior compositor. As filmagens foram feitas em três locais belos e históricos: o Palácio do Catete, sede do Poder Executivo brasileiro de 1897 até 1960 (foi lá que Getúlio Vargas se suicidou), o Palácio das Laranjeiras, residência do governador do estado, e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no qual diversas obras de Villa-Lobos foram estreadas (único lugar em que a administração cobrou, e muito, para ser utilizado nas filmagens) com destaque para o belo pano de boca pintado por Eliseu Visconti.
Além dos três locais, vale a pena registrar o cuidado com as vestimentas que o quarteto utiliza, de casacas a camisas com mangas arregaçadas e trajes esportivos, e a precisa e ágil direção de câmeras.
As imagens nos ajudam a compreender o complexo tecido contrapontístico das obras. O grande violonista, e ex-diretor do Museu Villa-Lobos, Turíbio Santos, introduz de forma breve e precisa cada um dos quartetos, utilizando partes do importante livro de Arnaldo Estrela. Vale lembrar que não há no mercado internacional nenhuma integral de quartetos de cordas, salvo de Beethoven, em DVD. Nenhum dos ciclos importantes do século 20 como os de Bartók ou Schoenberg, foram gravados nesta tecnologia. Se formos comparar a execução destas gravações com os registros de áudio encontráveis no mercado dos quartetos de Villa-Lobos, a vantagem do Quarteto Radamés Gnattali não está apenas no fato de que existem imagens das execuções. As execuções aqui comentadas são bem superiores às do Quarteto Danubius (selo Marco Polo) ou do Quarteto Bessler-Reis (selo Le Chant Du Monde). A única gravação que rivaliza com o quarteto carioca é a do mexicano Cuarteto Latinoamericano (selo Dorian).

O Quarteto Radamés Gnattali foi fundado em 2006. Vencedor do 13.º Prêmio Carlos Gomes, levou o repertório de câmera brasileiro às Américas do Norte e do Sul, à Europa e à África. Eles mantêm trabalhos didáticos extremamente interessantes, chamados “Projeto Tuhu” (o apelido de Villa-Lobos), explorando páginas do “Guia Prático” de Villa-Lobos com fins didáticos em escolas públicas não só do Rio, mas também no Norte, Nordeste e Centro-oeste do país. Seus projetos em termos de gravações levam em conta o estímulo a compositores brasileiros, que são sempre as estrelas de suas apresentações.

Os 17 quartetos de cordas de Villa-Lobos foram escritos de 1915 até 1957. Assim como as sinfonias do compositor, os quartetos são pouco conhecidos do grande público. São obras com tendências bem variadas, mesmo dentro de uma mesma obra. Páginas completamente atonais, especialmente no “Quarteto N.º 9”, tem muitas vezes conclusões tonais. Villa-Lobos não tinha compromisso com nenhuma escola e o nacionalismo só fica bem marcado nos “Quartetos N.º 5” e “N.º 6”, o primeiro deles composto exatamente no início da colaboração do compositor com o estado novo. Muito do fato dos quartetos não serem obras populares é que fora estes dois e o “N.º1” , eles trazem uma visão mais abstrata do nacionalismo. Tomemos o andamento lento do “Quarteto N.º 4”. Um acompanhamento de três instrumentos dá espaço a um canto que parece ser uma modinha altamente estilizada. O efeito é hipnótico. Aliás, este segundo movimento do “Quarteto N.º 4” é a prova maior tanto da genialidade de Villa-Lobos quanto da excelência do Quarteto Radamés Gnattali. É possível notar a extraordinária musicalidade e entrosamento dos quatro instrumentistas ao ver este genial canto passando por cada um dos instrumentos.
Villa-Lobos permanece em diversos aspectos um desconhecido dos próprios brasileiros. Quem aqui conhece alguma de suas 11 sinfonias? E quem conhece seus 17 quartetos de cordas? Este belo lançamento nos possibilita de forma plena conhecer um dos mais fascinantes ciclos compostos pelo nosso músico maior.
Maestro Osvaldo Colarusso
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