quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Formações corais e seus repertórios


“Sir Georg Solti disse, "cantar é a base de todo fazer musical". Nesse espírito, todo aspirante a regente deve aprender a cantar; quanto melhor você entender sua voz, melhor você irá preparar um coro e dar exemplos à orquestra. Cante em um coro, aprenda com outro regente, forme um grupo, frequente concertos, ouça gravações, faça tudo para ganhar experiência e aprender como a voz funciona.”

Vance George,The Cambridge Companion to Conducting.Cambridge: Cambridge University Press, 2003. p. 45 - 46

Ø     Um coro com 15 integrantes ou com 150. É só uma questão numérica?

Coro: formação homogênea (só vozes)

Falsa percepção: qualquer repertório é possível para qualquer coro

Conceito de “formação musical”: tipo de grupo musical, vocal ou instrumental, com características próprias e repertório ideal, sempre em expansão. Exemplos: orquestra de cordas, quinteto de sopros, banda de jazz tradicional.No canto coral: coro de câmara, ensembles vocais/instrumentais, coro sinfônico, coro lírico.

Ø     Coro sinfônico: possibilidades de distribuição em palco:

Ø     Classificação das formações corais: critérios

Vozes mistas ou vozes iguais

Coro misto (pode varias o número de vozes, desde que tenha vozes masculinas e femininas)Coro de vozes iguais (feminino, masculino)Dentro desta classificação, estão muitas formações diferentes. Exemplos: Cathedral choirs são coros de vozes masculinas, unindo meninos nas vozes agudas e vozes masculinas adultas.  Um coro de meninas e um coro de mulheres adultas são ambos de vozes iguais, mas podem variar em seus repertórios Os madrigais renascentistas costumam ser a 5 vozes, enquanto as canções do século XX são geralmente a 4 vozes mistas.

Ø     Cathedral Choirs (Reino Unido):

1.      Coros mistos:

Coro misto (10 vozes)Perfil mais próximo do madrigal

Efeito de conjunto, apesar de vozes solistas

Repertório preferencial: renascença

Regente: Peter Phillips

Ø     Classificação das formações corais: critérios

Por gênero de repertório:MadrigaisMotettkor

Coro lírico Pressupõem uma escolha dos tipos de vozes adequadas ao repertório em foco. No coro lírico, todos devem ser cantores treinados no repertório operístico. No Motettkor, privilegia-se a homogeneidade das vozes, mais do que as capacidades dramáticas. Os madrigais pedem vozes leves, sem muito vibrato, com grande importância para a dicção do texto. Além das características vocais, há outros requisitos, como por exemplo: Para os madrigais: bom conhecimento de outros idiomas, sobretudo o italiano, inglês, francês e alemão, e contato com a literatura. Para o coro lírico: habilidade cênica. Para o Motetkor: conhecimento fonético, formação em música contemporânea, boa escuta polifônica.

Ø     Madrigal e Motettkor: definições pelo repertório

Classificação das formações corais: critérios

Pelo vínculo dos coralistas

Coro profissional assalariado

Coro profissional por cachê

Coros ligados à participação em eventos(festivais, cursos, concursos, coro laboratório) Coros amadores com quadro fixo (ligados ou não a instituições)

Coros de estudantes ligados à atividade institucional (ex: coros escolares, coros universitários com matrícula)

Coros de estudantes por livre frequência (ligados ou abrigados por instituições, mas sem vínculo de matrícula)

Coros institucionais(de empresas, instituições públicas ou religiosos, em que se pressupõe o vínculo com a instituição)

Coros religiosos(em que a participação no coro faz parte de uma vinculação mais ampla com a instituição)

Coros independentes(em que o próprio grupo gerencia as atividades, sem vínculo institucional ou criando sua própria associação)

Coros de aprendizado (coro como espaço educativo, ligado ou não a um curso)

Ø     Classificação das formações corais: critérios Divisão entre Coro acompanhado ou a capella

Ensembles vocais ou madrigais

Ensembles vocais/instrumentais

Coro de câmara (a capella ou acompanhado)

Coro sinfônico

Coro de massa

Jazz choir

Show choir

Ø     EUA: jazz e show choirs:

Ø     Acompanhamento

 A presença ou não do acompanhamento depende tanto do repertório quanto do objetivo artístico.

Há corais que podem cantar ora acompanhados, ora a capella. Outros definem-se mais frequentemente como coro a capella ou acompanhado.

Repertório com orquestra ou grupos instrumentais: geralmente ensaiados com piano.

Repertório camerístico: há grande produção para coro e piano, além de outras formações camerísticas.

Repertório medieval, renascentista e barroco: instrumentos de época, cópias de instrumentos antigos ou adaptação de instrumentos modernos.

Repertório popular: pode ser acompanhado por instrumento de teclado ou de cordas dedilhadas, além de percussão e outros instrumentos, que podem ser uma formação fixa para a qual são feitos arranjos, ou variável,com instrumentistas convidados.

Repertório popular: instrumentos acrescentados de acordo com a performance, percussão corporal, sons vocais como acompanhamento.

Repertório tradicional étnico: acompanhados com instrumentos tradicionais. Ex: música japonesa, cantos indígenas, música chinesa, música africana.Música eletroacústica: interação com sons eletrônicos, gravação em estúdio.Repertório religioso: dependendo da religião, pode ser com órgão, piano ou grupo instrumental.

Ø     Do coro para o repertório

Os músicos costumam pensar nas obras como projetos ideais em busca dos intérpretes perfeitos.

Há, no entanto, outro caminho, mais comum na prática coral: a definição de um grupo vocal fixo em busca de seu repertório.

Pensar do coro para o repertório: conhecer os repertórios e, ao mesmo tempo, as vozes e possibilidades do coro. Ampla variedade de repertório, dentro dessas possibilidades descritas. Adaptações e experimentação de estilos podem levar a descobrir novas sonoridades adequadas para o grupo.

Ø     O mesmo repertório em diferentes contextos

Exemplos: Madrigais podem ser vistos como repertório especializado ou como repertório didático.

Coros de ópera podem ser incluídos em programas decoros sinfônicos ou de câmara.Canções populares costumam ser preparadas por coros de câmara eruditos em arranjos elaborados musicalmente.

Temas de grandes obras do repertório clássico podem ser adaptadas como repertório didático infantil ou juvenil.

Cantatas de Bach: pode-se preferir ouvi-las com vozes femininas, mas um coro infantil pode decidir incluir uma cantata em seu repertório.

Transformações na interpretação do repertório coral

A interpretação do repertório coral acompanha as discussões estéticas e musicológicas presentes em outros campos musicais.

Com relação à ópera barroca, por exemplo, houve uma grande valorização desse repertório a partir de estudos musicológicos.

Obras corais sinfônicas têm sido feitas pelas grandes orquestras mundiais, construindo o equilíbrio a partir da massa orquestral.

Coros de câmara com grupos fixos, como os coros das rádios europeias, mantém ou convidam grupos instrumentais que se equilibram com a massa coral.

Os coros como geradores de repertório

O arranjo e a adaptação estão valorizados na programação contemporânea, embora nem sempre isso tenha sido assim, historicamente.

O repertório coral contém arranjos e adaptações de toda ordem: do instrumental ao vocal, do solista ao arranjo para coro, do oral ao escrito, de um idioma a outro, etc.Regentes corais têm sido grandes geradores de repertório: como arranjadores ou compositores, fazendo encomendas ou simplesmente estreando obras dedicadas ao coro ou ao regente.

Ø     Festivais e outros eventos

Os eventos da área, nacionais ou internacionais, são grandes divulgadores de repertório.

Festivais corais costumam encomendar obras a compositores para eventos específicos. Os oratórios de Mendelssohn são um exemplo de repertório surgido dessa prática.

“existir é diferir”

O sociólogo Pierre Bourdieu disse que, em arte, “existir é diferir”. A necessidade de buscar um repertório diferenciado faz com que os coros busquem obras menos conhecidas, do passado ou presente.

Ø     Intérpretes, musicólogos e meios de comunicação

 A relação entre intérpretes e musicólogos gerou uma série de gravações a partir de edições e revisões musicológicas, principalmente nos países latino-americanos, em que não havia gravações decompositores fundamentais.

Rádio e TV são veículos que, ocasionalmente, transmitem performances corais, sem continuidade, no caso do Brasil. Em outros países, coros ligados a emissoras de difusão estão ligados a grandes projetos de gravação (Ex: Coro da BBC de Londres) e, assim como de outras culturas menos próximas.

Ø     O Repertório coral é ligado à prática

Parto sempre do princípio de que o repertório não é uma produção sacralizada. O repertório surge na prática coral e é através dela que ele se mantém e se transforma. Cada coro, cada regente e cada coralista, assim, são produtores de repertório!

Espero que minhas observações possam ajudar apensar o repertório coral de forma ampla, com a riqueza que essa atividade cultural possui.

Para citar minhas opiniões:

IGAYARA-SOUZA, Susana Cecília. Formações corais e seus repertórios. Material didático(apresentação em powerpoint) do Curso de Introdução aos Estudos de Repertório Coral. SãoPaulo, Universidade de São Paulo, 2011.
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