segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

compartilhar dá câncer


O que aconteceu com os livros do mundo? De repente, dois mil e poucos anos de literatura ocidental foram resumidos aos escritos de alguns poucos autores. Pouquíssimos. Aparentemente noventa por cento de tudo que está rolando na internet foi escrito pela Clarice Lispector e o Caio Fernando Abreu. As redes sociais estão fazendo este bem à literatura, transformando-a numa compilação de citações ridiculamente curtas e que “tocam o coração”. Literatura, hoje em dia, precisa ter esta levada subjetiva, psicológica, positiva, otimista, babaca e curta.
Não que eu ache isso dos autores citados, porque eu não acho nada deles. Clarice, li na escola. Abreu, li recentemente, até por causa deste boom cibernético. Na internet, suas obras se resumem às mesmas citações ad perpetuum, fechadas em arquivos de imagens e, por isso, altamente contagiosa ,”viralizável”, como dizem. São citações, claro, completamente deslocadas dos contextos originais, com erros ortográficos, designs cafonas e afrontas várias ao olho humano. É um carnaval de mesmice que, muito provavelmente, gera mais dano à consciência individual de cada ser humano e à suposta consciência coletiva do planeta do que qualquer outra coisa que conhecemos atualmente. Talvez seja pior do que radiação nuclear ou gás metano.
Claro, some-se a isso a técnica da repetição, que é uma estratégia de comunicação básica, um elemento natural da retórica, da música, de todas as artes, e é necessária à transmissão da mensagem, em qualquer nível de intencionalidade e comum a todas as espécies orgânicas do planeta, e esta foi a maneira que a natureza arranjou para gerar a si própria, repetindo-se, pois bem, some-se a tudo isso a repetição contínua de todas essas citações, sem parar, em todas as redes sociais existentes, e pronto: a lambança fica feita.
Apesar da repetição acontecer em tudo e em todos, ela pode ser prejudicial, claro. No âmbito humano, basta dar uma olhada para os malefícios que certos hábitos repetidos a médio e curto prazo provocam na vida das pessoas. A cracolândia é logo ali.
Então, como o crack, eu acho sim que pequenas peças de lixo cultural midiático podem ocasionar danos enormes ao desenvolvimento psicobiosocial do ser humano. É como um câncer, é como qualquer sistema entrópico, que entra em colapso e todo colapso é irreversível. Desculpe pela pretensa negatividade da ideia, mas as coisas são assim e se você tiver algum problema com isso, que se entenda com a Segunda Lei da Termodinâmica.
Então, Clarice, minha cara, Abreu, meu amigo, não é nada pessoal, mas se vocês estivessem vivos provavelmente concordariam comigo, pois esta aporrinhação que é a repetição incessante dos pequenos trechos de seus textos na internet, em todas as redes sociais existentes, parece-me o equivalente a um câncer. Desculpa.

Ponto para o Walter Benjamin, pra quem eu peço desculpas publicamente por ter espezinhado diversas vezes na minha juventude guerreira. A reprodução tira a aura da arte.
A repetição tira a alma das coisas.
Mas não estou falando que seja um câncer, ok? Eu acho que só parece.
Só a forma. Só o padrão. É só uma estrutura similar ao câncer.
A ciência tem nomes para essas coisas, mas eu ando com uma preguiça danada.
Então menos, gente, por favor.
Compartilhem menos.
CATO ALBERICO RIBEIRO
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