quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Socializando os prejuízos, privatizando os lucros.


Pode ser herança maldita dos nossos colonizadores portugueses. Ou então um vírus daninho entranhado em nosso DNA, do qual jamais nos livraremos. Qualquer um que tenha lido “Os donos do poder” de Raymundo Faoro sabe por que chafurdamos entre a corrupção e o jeitinho, o mote criar dificuldades para negociar facilidades, e por aí vai (a lista é extensa). Curto e grosso: todo mundo defende a livre concorrência, o democrático critério da meritocracia, etc.etc. Mas para os outros. Pra gente, vale mesmo o quentinho e imenso cobertorzão estatal, a porca de mil tetas que acomoda a todos e sempre tem lugar para mais um. O pior é que, mesmo com esta ‘ajudazona’, não há o menor problema em considerar particular o que é de todos – ou seja, gere-se a coisa pública como se o dinheiro não pertencesse a ninguém, estivesse ali pra ser saqueado mesmo, sem nenhum rubor. Estão aí as ONGs crescendo a zilhões por ano penduradas nos convênios dos ministérios – este é só o mais recente escândalo do qual se tem publicamente conhecimento.
Vocês vão dizer: o que é que deu nesse cara? O assunto aqui não é política, mas música. É verdade. Mas acontece que as coisas na música são muito parecidas com o que ocorre na política nativa. Vocês lembram que é só o sujeito sentar na cadeirona de presidente da República que ele fica tomado da síndrome de não conseguir demitir ninguém? Pois é, no mundo da música isso vem se repetindo, como bem acentuou o Irineu Franco Perpetuo em texto neste mesmo espaço. No serviço público, o sujeito cai em desgraça e é catapultado para cima. Arrumam um lugarzinho onde ele não seja visível e continue mamando seu salário mensal.
Exemplos? O mais recente é esta OSB do B, que repete a fórmula já testada com fracasso absoluto na reformulação da Osesp. De nada adiantou o Lutero Rodrigues fazer um admirável trabalho de divulgação da música brasileira com a Sinfonia Cultura. Levantou até o moral dos músicos demitidos da nova Osesp, que àquela altura só queriam um barranco pra se encostar e chegar na aposentadoria. O mesmo acontece agora com os demitidos da OSB. Isto é: não há – como sempre reclamam os gestores das instituições musicais brasileiras – verba suficiente para modernizar a orquestra. Mas, kafkianamente, assume-se um grande custo morto que vai jogar para muito mais pra frente o sonho carioca de ter uma orquestra de nível internacional.
Há quem diga que no caso da OSB, ela é privada. Uai, mas ela só funciona à base de incentivos fiscais – ou seja, com parte dos impostos, como praticamente tudo que se relaciona com a cultura e as artes no Brasil. Então os casos OSB e Osesp são rigorosamente iguais.
Não sabia, mas em Minas também ocorreu a mesma coisa. Minha sensação, neste momento, é de desânimo, ao contemplar a repetição de soluções já testadas e juramentadas como erradas. Errar uma vez é humano, já dizia o ditado popular. Continuar errando é burrice arrematada. Estou, porém, desconfiado de que em nosso caso à burrice devemos acrescentar cinismo, má-fé e profundo, atávico descaso com tudo que não seja o próprio bolso. É como na educação, onde, em vez de se investir na formação dos professores, prefere-se comprar tablets caríssimos para crianças obrigadas a comerem alimentos com datas vencidas, quase podres. Vocês de novo vão me dizer que esta é outra história e que nada tem a ver com música. Tem sim. Porque é a mesma síndrome acima descrita: cria-se um novo, desnecessário e superfaturado gasto, que por sua vez justifica a impossibilidade de se construir um projeto decente no futuro.
Quanto a nós, podemos ao menos nos perguntar até quando esse tipo de esperteza se repetirá. Mesmo que a pergunta caia no vazio, não se pode desistir. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
João Marcos Coelho
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