quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Teatro Municipal do Rio de Janeiro anuncia temporada 2012


O Theatro Municipal do Rio de Janeiro anunciou na sexta-feira, 10 de fevereiro, sua Temporada 2012, que se inicia em maio com o balé Criação.
Em função da obrigatória  transferência do início da temporada e do necessário ajuste de datas, conforme já divulgado aqui no Movimento.com, os detalhes sobre a programação (datas, horários, solistas, etc…) serão divulgados mais adiante.  Por ora, foi possível apurar apenas que a ópera Rigoletto deverá ser uma nova coprodução entre o Municipal e o Palácio das Artes, dirigida por Pier Francesco Maestrini.
Logo abaixo, em ordem cronológica, segue a programação, que é comentada por mim depois do último título anunciado.  A breve descrição de cada obra foi fornecida pela assessoria do Theatro Municipal.
Criação

Coreografia de Uwe Scholz
Música de Joseph Haydn

Maio/Junho
Morto prematuramente em 2004, aos 46 anos, o coreógrafo alemão Uwe Scholz, valendo-se do oratório de Haydn inspirado nos livros Gênesis e Paraíso Perdido,  transportou para a cena 33 quadros que representam os sete dias de criação do universo.  Para Scholz, a ideia de mundo se mistura com a ideia de espetáculo, e exibe um grande equilíbrio entre música e coreografia.  O Ballet do Theatro Municipal dançou a peça uma única vez, em 2005.  O espetáculo conta com a presença do Coro e da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal.

Rigoletto
Ópera de Giuseppe Verdi

Julho
Com libreto de Francesco Maria Piave, a ópera  é inspirada na peça de teatro Le roi s’amuse, de Victor Hugo, baseada na vida amorosa do Rei Francisco I.  A obra sofreu censura, acusada de expor a figura régia ao ridículo.  Por esta razão, a ópera se desvia ligeiramente da peça.  A personagem do Duque era inicialmente o Rei, e alguma parte do texto teve de ser alterada devido ao conteúdo político.

Onegin
Coreografia de John Cranko

Música: P.I. Tchaikovsky
Agosto

A coreografia de John Cranko, baseada no poema Onegin, do russo Alexander Pushkin, subirá ao palco do Theatro Municipal após um intervalo de seis anos.  A música de Tchaikovsky será executada pela Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal.  O balé em três atos conta a história do jovem Eugene Onegin, que, anos após rejeitar o amor de Tatiana, se vê completamente apaixonado por ela, que, por sua vez, embora ainda o ame, já não o quer mais.
A Viúva Alegre  (Die Lustige Witwe)

Opereta de Franz Lehár
Setembro

A opereta mais famosa do mundo sobe ao palco em setembro.  O enredo de A Viúva Alegre desenvolve-se em Paris, onde o embaixador de um país europeu imaginário empenha-se em fazer com que a rica viúva Ana Glawary se case com um compatriota, para que sua fortuna permaneça na pátria.  A obra estreou em 1905 e se transformou no mais bem sucedido musical de todos os tempos.

Notre-Dame de Paris

Coreografia: Roland Petit
Música: Maurice Jarre

Outubro/Novembro

Depois de dançar Carmen e L’Arlèsiènne, o  Ballet do Theatro Municipal apresenta outra obra do coreógrafo francês, morto no ano passado.  O balé é inspirado no famoso romance homônimo de Victor Hugo, que narra a história do amor altruísta do deformado sineiro da catedral de Notre-Dame, Quasímodo.  É a primeira vez que o BTM apresenta a obra, que tem música original escrita por Maurice Jarre e figurinos assinados por Yves Saint Laurent.
La Traviata

Ópera de Giuseppe Verdi
Novembro/Dezembro

Emblemático título do repertório de Verdi, com libreto de Francesco Maria Piave, a história é baseada no romance A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho.
O Quebra Nozes

Coreografia de Dalal Achcar
Música P.I. Tchaikovsky

Dezembro 2012/Janeiro 2013
O mais popular dos balés, um clássico natalino, em versão de Dalal Achcar, encerra a temporada de dança do Ballet do Theatro Municipal.

 Comentários
É óbvio que o trágico desabamento de três prédios logo atrás do Theatro Municipal, e ao lado de seu Anexo, prejudicou não só a programação própria da casa para este ano, como também está obrigando outras instituições, que tradicionalmente utilizam o nobre palco da Cinelândia, a ajustarem suas respectivas temporadas.  No entanto, pelo menos duas observações se fazem necessárias neste momento.

A primeira delas refere-se, claro, à diminuição no número de títulos líricos apresentados na última temporada.  Se quatro títulos já configuram um número abaixo de um mínimo aceitável, apresentar apenas três títulos, além de um clamoroso retrocesso, é um balde de água fria no público melômano carioca; ainda mais se compararmos a quantidade de títulos que aqui serão apresentados com aqueles que subirão ao palco do Municipal de São Paulo, que deve anunciar oficialmente sua temporada depois do Carnaval.
Aparentemente, se não houvesse a necessidade de adiar o começo da temporada, o Municipal apresentaria novamente quatro óperas e quatro balés este ano.  Fica a pergunta: por que, toda vez que tem problemas, sejam estes de qualquer natureza, a diretoria do Municipal (não só a atual, mas também algumas diretorias anteriores) cancela sempre uma ópera?  Por que não, só para variar, cancelar um balé?
A segunda observação refere-se aos títulos escolhidos.  No balé, a temporada está bem equilibrada, apesar do indefectível Quebra Nozes, que, apesar de repetitivo ao extremo para um teatro que só apresenta quatro balés por ano, é sempre sucesso de público.  Já a temporada de óperas é difícil de defender.  Rigoletto já foi montado e remontado(!!) no Municipal na primeira década deste século; e La Traviata também foi montada (esplendidamente, diga-se) em 2001.  Neste mesmo período, várias óperas do mesmo Verdi (como Otello, Falstaff, Aida e A Força do Destino, por exemplo) e de outros compositores, algumas até bem populares, sequer chegaram perto da Cinelândia.

Com todo o respeito, é improvável que o Municipal de hoje consiga dar à Traviata uma encenação do nível daquela de 2001, pelo menos é o que se pode depreender da qualidade de suas encenações recentes.  Musicalmente, é possível atingir um alto nível, dependendo dos solistas escalados, mas cenicamente é difícil, muito difícil fazer este Verdi à altura das tradições da casa, que, além da versão de Sonja Frisell (2001), tem na sua bagagem histórica uma de Franco Zeffirelli (1979).  Apesar desse pessimismo, é claro que, como amante da ópera e grande admirador de Verdi, torço para ter a língua muito bem queimada.  Aguardemos.
Outro aspecto que muito me incomoda é o fato de o Municipal praticamente só apostar num repertório básico de óperas.  Não se monta, por exemplo, ópera russa ou tcheca.  A própria ópera alemã é rara no Rio.  Da ópera francesa, do ano 2000 para cá, só Bizet e Gounod; nada de Massenet ou Berlioz, por exemplo.  E, no campo da ópera italiana, mais popular entre nós, va bene, temos muitas repetições, como nos exemplos citados acima, e também na Tosca, que recebeu duas montagens novas desde o começo do milênio.

Isso tudo para não falar da ópera brasileira, e em especial de Carlos Gomes, que também de 2000 para cá teve seu Guarany apresentado duas vezes: encenado em 2000 e em forma de concerto em 2010.  Já Fosca, Salvador Rosa, Maria Tudor, O Escravo, Condor… necas!

Fica a dica: o Municipal precisa não só aumentar, como também diversificar mais sua temporada lírica, arriscar mesmo na escolha dos títulos.  2013 será um ano especial pelo bicentenário de nascimento de Verdi e Wagner, e é natural que a programação do ano que vem centre-se nesta dupla – e, cá entre nós, o simples fato de ter Wagner na temporada (com mais de uma ópera, espero) já será uma ótima novidade.  Mas e depois?  Falta Strauss no Municipal, falta Mozart, falta Rossini, Donizetti, Bellini, além de outros já citados; faltam também aqueles “compositores de uma ópera só”, como Ponchielli e Boito.  Até as paredes do Theatro sabem disso.
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