quinta-feira, 25 de abril de 2013

O impasse na difusão de nosso patrimônio musical



A autoestima exagerada dos europeus

Assino duas revistas mensais europeias que comentam o mundo da música clássica, uma inglesa (BBC Music) e uma francesa (Diapason). Tenho que driblar as preferências “ufanísticas” para melhor aproveitar os textos, que em geral são de um bom nível. Se levarmos à risca a revista inglesa, Gustav Holst (1874-1934) está entre os maiores compositores do início do século passado, e Sir Charles Mackerras é o melhor intérprete de Mozart de todos os tempos. Lembro-me de uma matéria da edição de junho de 2009, onde há uma lista dos maiores prodígios musicais da história, e nesta lista não está Wolfgang Amadeus Mozart(1756-1791), mas está um tal deWillian Crotch (1775-1847, inglês naturalmente), que no final do século XVIII escreveu, segundo a revista, obras primas com 11 anos de idade. Aliás a BBC Musicadora fazer listas, com os melhores maestros, os melhores pianistas, e sempre os ingleses aparecem aos montes por elas. No caso da revista francesa acontecem coisas parecidas, como citar com frequênciaFlorent Schmitt (1870-1958) como um compositor indispensável do início do século XX, ou achar que Thierry Pécou (nascido em 1965) é um dos mais importantes compositores da atualidade.

A baixa autoestima dos brasileiros

É neste sentido que me pergunto se nós brasileiros não deveríamos cometer os mesmos excessos. Logicamente não podemos comparar o poder do Brasil com o daqueles dois países europeus, que são duas potencias em termos musicais (não esqueçamos que Londres e Paris tem pelo menos cinco excelentes orquestras cada uma). Mas o que vejo, e quero comentar, é que se algumas poucas vezes incorremos no erro de superestimar, muitas vezes incorremos no erro de desprezar uma produção de alta qualidade. Tomemos o mais distante passado musical do Brasil, aquele que chamo de Música colonial brasileira. Não há dúvida de que em termos históricos a produção de Lobo de Mesquita (1746-1805) e Manoel Dias de Oliveira (c.1735-1813) suscita interesse, mas querer dar-lhes a alcunha de gênio poderia ser um exagero. Às vezes vejo esta produção supervalorizada (foi chic por um tempo defende-la), mas ao mesmo tempo vejo a produção do primeiro gênio musical brasileiro, José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) completamente desprezada. Faço uma autocrítica de nós brasileiros, que desconhecemos uma das mais importantes obras corais-sinfônicas já escrita neste continente, a Missa de Santa Cecília. Fiquei muito contente ao ouvir a Abertura Zemira do compositor carioca executada de forma brilhante regida por Ricardo Kanji, e pensei como somos idiotas não reconhecendo o que, a meu ver, deveria ser valorizado.
Outra distorção acontece quando falamos de Antônio Carlos Gomes (1836-1896), um nome de praças e de ruas, mas desconhecido dos próprios brasileiros. Não adianta insistirmos, Carlos Gomes é um desconhecido fora do Brasil e de forma errônea falamos que suas óperas são montadas com frequência em diversos lugares do mundo. No entanto pergunto como o mais importante compositor de óperas das Américas tornou-se um desconhecido, um item apenas para colecionadores? Afirmo aqui que isso é um erro nosso! O Brasil (especialmente o Rio de Janeiro) já foi um palco lírico importante em termos mundiais, e muitos cantores de fama internacional frequentavam nossos palcos, fazendo com que artistas do nível de Mario del Monaco e Antonieta Stella cantassem aqui óperas de nosso conterrâneo , e levassem estas óperas para o exterior. Hoje não existe mais esta rotina, e a fé que podemos ouvir na velha gravação de Il Guarany regida por Armando Belardi (lançada recentemente no selo Arkadia), realizada em 1959, é prova incontestável de que esta música pode soar muito bem. Se Il Guarany não pode rivalizar com uma obra como Aida de Giuseppe Verdi (1813-1901), não é uma obra inferior à tão renomada La Gioconda de Amilcare Ponchieli (1834-1886). As partituras de orquestra da maioria das obras deCarlos Gomes tornaram-se ilegíveis, e creio que o futuro do “Nho Tonico” (apelido do compositor) não se apresenta muito promissor.

Não pretendo me estender demais, mas no século XX esta falta de consciência de nossa importância é ainda maior. Onde estão os defensores dos Concertos para piano e para violino e orquestra de Camargo Guarnieri(1907-1993)? Quem revela ao mundo as maravilhas das obras de Almeida Prado(1943-2010)? Não quero fazer o mesmo jogo dos editores da BBC Music e da Diapason, que com a maior cara lavada nos impõe compositores de segunda como mestres indispensáveis, mas uma coisa é bem clara: nossa produção musical, de ontem e de hoje, não encontra um ambiente para ser difundida. Impossível que o mundo respeite algo que nem nós respeitamos.
 Osvaldo Colarusso
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