quarta-feira, 17 de abril de 2013

Obras inacabadas. Que assim permaneçam?



Ninguém se atreveria a terminar uma escultura inacabada de Michelangelo, e mesmo ninguém teria a ousadia de terminar uma pintura não concluída de Leonardo da Vinci. No entanto o mesmo respeito nem sempre se dá em meio às obras musicais. No caso de uma composição musical o público em geral não teria nenhuma possibilidade de ter contato com um esboço incompleto, mas creio que é interessante refletir sobre estas tentativas de se completar o que os autores não tiveram tempo ou vontade de fazê-lo. Se o inferno está lotado de “boas intenções” o mesmo pode-se dizer a respeito destas tentativas, e questiono seriamente a qualidade de seus resultados. Vou dividir a lista das grandes obras inacabadas entre aquelas que não precisariam ser completadas, aquelas (raras) que foram completadas de maneira satisfatória, aquelas que têm resultados mistos, e aquelas que foram mal completadas.
Obras inacabadas, mas convincentes.
Duas obras me vêm à mente, que são convincentes, apesar de seu aspecto inacabado. ASinfonia em si menor, conhecida como “Inacabada” de Franz Schubert é a primeira delas. Esta obra tremendamente introspectiva leva muita gente a fazer um roteiro hollywoodiano sobre o compositor morrendo tentando terminar a obra. Besteira! Schubert escreveu os dois movimentos da Sinfonia Inacabada em 1822, bem antes de sua morte. Ele chegou a esboçar um terceiro movimento, mas é interessante saber que em 1823 ele mandou os manuscritos dos dois movimentos completados para um editor. Em resumo, ele a esta altura julgava a obra completada. Desonesta as tentativas de Gerald Abraham e Geoffrey Bush de completarem a obra.
Outra partitura que está bem como está é a ópera Moisés e Aarão (Moses und Aron) deSchoenberg. Apesar de o compositor ter escrito o libreto do terceiro ato, os dois atos que ele compôs a música estão bem convincentes. A frase de Moisés no final do segundo ato “Oh palavra que me falta” é a melhor conclusão que esta fantástica ópera poderia ter. Assisti em Berlim uma produção em que o terceiro ato, cuja música nunca foi escrita, era apenas declamado, como uma peça de teatro. Resultado pífio. Lembro, para completar, de um bom concerto que assisti aqui em Curitiba, quando os professores de Música Antiga da Oficina de Música tocaram a fuga inacabada da Arte da Fuga deBach. Ao deixar a coisa no ar, percebemos que aquela é a melhor solução.

Obras bem completadas

O melhor trabalho que tenho notícia de uma partitura completada por outro compositor é a ópera Lulu deAlban Berg. Seu autor ao falecer no final de 1935 deixou o último ato apenas esboçado. Sua viúva, que era meio perturbada, não deixou ninguém se aproximar destes esboços. No início até tentou de maneira esquiva convidar amigos de seu falecido esposo , como Arnold Schoenberg e Anton Webern, para completarem a obra, mas depois disse que teve conversas com seu falecido marido (não disse que ela era perturbada???) e que ele desejava deixar a obra inacabada. O meio musical festejou a morte desta enlouquecida viúva em 1975, e o compositor austríaco Friedrich Cerha fez o melhor trabalho de completar uma obra inacabada já feito na história da música. Não pode-se sentir diferença estilística alguma no ato completado por Cerha, e hoje o mundo pode assistir em sua totalidade uma das principais óperas da história da música. Assisti , no ano passado em Dresden, uma outra versão completada, assinada por Eberhard Kloke. Resultado pífio. Outra obra completada, e que pouca gente sabe que foi completada por outrem é o Concerto Nº 3 de Béla Bartók para piano e orquestra. Os últimos 17 compassos foram escritos pelo amigo e discípulo de Bartók Tibor Serly. Trabalho tão bem feito que ninguém nem desconfia dele.

Obras completadas de forma discutível

A obra inacabada, cuja conclusão é mais contestada, é o Réquiem de Mozart. Mais um roteiro hollywoodiano bem conhecido de todos. Vamos às lágrimas: um compositor, desprezado, pobre, tentando escrever seu hino de morte! Besteira! Este Réquiem realmente ficou esboçado pelo grande compositor, e seu aluno e assistente Franz Xaver Süssmayer se encarregou de completar a obra. A única parte completada por Mozart é a primeira sessão, o Requiem aeternam. A partir do Dies Irae as coisas vão rareando em termos de composição deMozart, e certos trechos do Requiem não tem uma nota sequer do mestre: o “Sanctus”, o “Benedictus” e o “Agnus Dei” são obras integralmente de Süssmayer. O que é mais discutível é que Süssmayer manteve a mesma orquestração em todo o trabalho, algo que o próprio Mozartnão costumava fazer. Outros músicos tentaram completar a obra, mas, mesmo que discutível, o trabalho de Süssmayer permanece o melhor.
Na mesma categoria estaria a ópera Turandot de Puccini. Ele não chegou a compor a cena final, e o compositor italiano Franco Alfano o fez, baseando-se nos esboços do compositor. Ao ouvirmos o primeiro acorde da versão de Alfano percebemos que estamos longe da qualidade de Puccini. Outro compositor italiano, Luciano Berio, fez em 2002 uma outra tentativa, mas o resultado é mais questionável ainda do que o de Alfano. Vamos ficar com Alfano. É menos ruim.

Obras mal completadas

Daí a lista é bem grande. Schubert é uma das principais vítimas. De maneira desonesta já se tentou completar de forma bem desajeitada duas de suas sinfonias apenas esboçadas, as de Nº 7 e 10, e o compositor Ernest Krenek fez uma assustadora versão da Sonata em dó maior conhecida como “Relíquia”. Mas o que mais me assusta mesmo são os defensores das versões completadas da Sinfonia Nº 10 de Mahler. A mais famosa das versões completadas é do inglês Deryck Coocke.Mahler completou apenas o primeiro movimento, e na realidade nem sabemos ao certo se este seria o primeiro, o último ou um movimento intermediário da sinfonia e grandes especialistas em Mahler como Bernard Haitink, Pierre Boulez, Leonard Bernstein e Bruno Walter rejeitaram publicamente esta discutível versão.
Outra obra completada com grande alarde comercial, foi a Sinfonia Nº 9 de Anton Bruckner. No ano passado Sir Simon Rattle anunciou aos quatro ventos que finalmente iria executar a versão completa desta obra que vinha sendo apresentada em apenas três movimentos. Que decepção! Este quarto movimento, realizado por uma equipe de musicólogos (Samale/Mazzuca/Phillips/Cohrs) é uma sucessão de lugares comuns, e algo bem distante do que se presumia para uma sinfonia que tem, em seus três movimentos completados, algumas das melhores páginas sinfônicas do final do século XIX. Outra solução lamentável é a da ópera Kowantschina de Mussorgsky. O compositor não só a deixou sem orquestra-la, mas não escreveu a última cena. Rimsky-Korsakow fez um trabalho sujo, não só orquestrando, mas cortando cenas, modificando e simplificando ritmos, e sobre tudo reduzindo a harmonia tão inovadora de Mussorgsky para encadeamentos acadêmicos. Felizmente o compositor russo Dimitri Shostakovich fez, no início da década de 60, um trabalho exemplar.

Completar pode ser criar

Encerro com uma experiência que julgo no mínimo interessante. Entre 1989 e 1990 o compositor italiano Luciano Berio (aquele mesmo que completou Turandot de Puccini) escreveu uma obra intitulada “Rendering”. Traduzo o título como “Retribuição”. Ele toma os esboços de uma Sinfonia deFranz Schubert, e preenche os lapsos com música de seu próprio estilo. Percebemos então, de forma clara, até onde Schubert escreveu e quais são as contribuições de Berio. O que surge é uma composição muito interessante, e creio mesmo que Berio fez aqui o mais criativo trabalho sobre os esboços de outro compositor. De qualquer maneira continuo manifestando a minha inveja aMichelangelo e da Vinci. Seus esboços e suas obras inacabadas continuam do jeito que deixaram.Afortunados!

Osvaldo Colarusso
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