segunda-feira, 8 de abril de 2013

Rio de Janeiro inaugura dois grandes museus

 
Novidades são o MAR, na Zona Portuária, com acervo de 3 mil peças, e a Casa Daros, em Botafogo, que abriga importante coleção de arte latino-americana
Há uma piada recorrente que diz que o mais novo museu do Rio de Janeiro é o Museu de Arte Contemporânea (MAC), que fica na cidade de Niterói. A brincadeira perdeu a validade neste mês, quando a capital fluminense viu nascer duas instituições culturais: o Museu de Arte do Rio (MAR), na Zona Portuária, e a Casa Daros, em Botafogo. O MAR é um museu público, primeiro “filho” do chamado Porto Maravilha, projeto de recuperação de uma das áreas mais degradadas da cidade. Já a Daros é uma instituição privada, nascida de uma coleção suíça de arte latino-americana. Com propostas e concepções bastante diferenciadas, e por isso complementares, os museus se igualam na ousadia.
Quando o Museu de Arte do Rio abriu suas portas para o público, em 5 de março, a expectativa era de que o MAR recebesse, por ano, 200 mil visitantes. No ritmo em que está, nova meta deverá ser estabelecida. Antes de completar um mês, o museu já bateu a casa dos 50 mil visitantes. Nas terças-feiras, que têm entrada franca, peque
As duas edificações, de estilos e períodos distintos, interligam-se através de uma cobertura que remete a uma onda. Uma rampa liga os dois prédios. O caminho da visitação é sempre descendente, começando pelo alto, a partir de uma área aberta, de onde se vê a zona portuária em plena ação. Bem perto, dá para observar a obra do chamado Museu do Amanhã, dedicado à ciência, que tem previsão de abertura para 2014. Será o segundo museu do Porto Maravilha, projeto de reestruturação da região histórica e bastante degradada do Rio de Janeiro.
Por meio da rampa o público, até então no prédio que vai funcionar a Escola do Olhar – parte educacional do MAR, cujas atividades começam a ser desenvolvidas em abril –, chega ao edifício mais antigo. É ali que estão as oito salas de exposição, divididas em andares diferentes. “O MAR pretende redefinir o papel social dos equipamentos públicos da área de cultura, na medida em que consideramos a educação tão importante quanto o espaço expositivo”, afirma Luiz Fernando de Almeida, diretor-executivo do museu.
No prédio que traz as exposições, as duas primeiras salas, no terceiro andar, são dedicadas ao Rio de Janeiro. A primeira mostra temporária, Rio de imagens: uma paisagem em construção, com curadoria de Rafael Cardoso e Carlos Martins, é a que tem tido maior aceitação do público. Não é difícil entender o porquê já na entrada, onde antigos cartazes de empresas náuticas e de aviação exploram imagens do Rio e seus cartões-postais obrigatórios, o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar.
Em 400 peças, o imaginário da cidade é revelado por meio de quadros de Tarsila do Amaral, aquarelas de Ismael Nery e outros notáveis que retrataram o Rio em diferentes épocas (Taunay, Di Cavalcanti, Emilio Goeldi, Pancetti). Mas o olhar de parte do público se prende também em objetos prosaicos, muitos que povoam o cotidiano de quem vive ou visita a capital fluminense. Há uma antiga série de bonecas Barbie dedicada ao Rio, pratos com fotografias da cidade. O Rio antigo é redescoberto em videoinstalação que reconstitui a Avenida Central, hoje Rio Branco. É um perder de referências, todas muito próximas ao imaginário coletivo.
“O MAR pensa a paisagem visual do Rio, então não vai colecionar somente obras de arte”, completa Almeida. O museu foi inaugurado com um acervo que conta com 3 mil obras. Muitas foram adquiridas, outras vieram de doações – por ora, a instituição conta com 50 fundos de doação (um fundo é formado quando são doadas 20 ou mais obras). A construção do museu municipal consumiu R$ 79,5 milhões – destes, R$ 65,5 milhões vieram do projeto Porto Maravilha e o restante do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac).
Jean Boghici

A segunda mostra é, de longe, a de montagem mais interessante. O colecionador: Arte brasileira e internacional na Coleção Jean Boghici reúne 136 peças, pinturas e esculturas que o marchand romeno, hoje com 85 anos, adquiriu ao longo de seis décadas passadas no país. Os curadores Leonel Kaz e Luciano Migliaccio selecionaram obras dos séculos 19 e 20, acompanhando nove tendências, passando pelo surrealismo, modernismo até pinturas russas e chinesas.
A cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara colocou, em duas salas, dois grandes espirais (um que dá para fora, outro que se volta para dentro). Dessa maneira, as obras ficam suspensas no ar. Dez por cento do que viria para a exposição foi perdido em incêndio que ocorreu em agosto no apartamento do marchand em Copacabana.
Os brasileiros voltam a ser reunidos na terceira mostra do MAR, Vontade construtiva na Coleção Fadel. Duzentas e cinquenta obras da coleção do advogado Sergio Fadel foram reunidas pelos curadores Paulo Herkenhoff (também diretor cultural do MAR) e Roberto Conduru. Do barroco (há duas esculturas de Aleijadinho), a mostra passa pelos modernistas, concretistas e neoconcretistas.
O abrigo e o terreno: arte e sociedade no Brasil, mostra que encerra o percurso pelo museu, traz para o primeiro plano uma discussão sempre presente no país: ideias de posse, propriedade e utilização dos espaços. Numa exposição, vídeos, fotografias, maquetes, instalações unem trabalhos de artistas como Hélio Oiticica, Lygia Pape e Cildo Meirelles até o projeto social Morrinho. Esse último busca no lúdico – uma grande instalação feita de tijolos que formam uma favela – a interação com o público.
MUSEU DE ARTE DO RIO – MAR

Praça Mauá, 5, Centro, Rio de Janeiro, (21) 2203-1235. Terça a domingo, das 10h às 17h. Ingressos: R$ 8 e R$ 4 (meia). Nas terças a entrada é franca. Mostra Rio de imagens: uma paisagem em construção, até 28 de julho; O colecionador: arte brasileira e internacional na coleção Boghici, até 1º de setembro; Vontade construtiva na coleção Fadel, até 7 de julho; e O abrigo e o terreno: arte de sociedade no Brasil, até 14 de julho.

Mariana Peixoto
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