segunda-feira, 24 de outubro de 2011

MG: Crianças e adolescentes da Orquestra Jovem trilham caminho longe da criminalidade

As manhãs e tardes ociosas, dormindo além da conta, assistindo à televisão ou brincando na rua, longe dos olhos de um responsável, foram trocadas por música clássica. Em uma casa adaptada de paredes coloridas e com desenhos alusivos ao ensino musical, 97 crianças e jovens de classe baixa têm a oportunidade gratuita de mudar o próprio destino. Eles aprendem a tocar violino, viola, violoncelo e contrabaixo. É assim, de segunda a sexta-feira, na Orquestra Jovem no bairro Alvorada, zona leste de Uberlândia.
A ideia surgiu em 2005, graças ao pianista Flávio Santos, quando era regente da Orquestra Camargo Guarnieri, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Durante as apresentações na periferia de Uberlândia, Santos percebeu o interesse dos menores pela música clássica. “Com o incentivo fiscal da Secretaria de Cultura do Estado e o patrocínio do Instituto Algar, compramos instrumentos e iniciamos com 44 alunos. Mais que ensinar música, o objetivo é a formação humana, dar outro destino a essas crianças”, disse Santos.
A ex-presidente do bairro Alvorada Efigênia Oliveira viu o projeto nascer e crescer e até hoje, após deixar a presidência, dedica a maior parte do tempo aos jovens. Viúva e mãe de dois filhos casados, foi na Orquestra Jovem que a pensionista viu a possibilidade de estender seu lado maternal: “Choro ao lado das mães durante as apresentações. Alguns moram em barracos nos bairros Zaire Rezende, Dom Almir, Prosperidade, Joana D’Arc e outros. Já estavam no caminho do mal e conseguimos recuperar. Chegavam aqui falando palavrão e agora falam sobre Beethoven”, disse Efigênia Oliveira.
Em julho deste ano, a Orquestra Jovem ganhou registro como pessoa jurídica e se transformou no Centro Cultural Alvorada. De lá, alguns alunos saíram, profissionalizaram-se e hoje vivem da música.
Entre os quatro professores e oito monitores da Orquestra Jovem, está o regente Afonso Quienzala. Natural de Uíge, em Angola, ele se mudou para o Brasil há dez anos, para estudar música. Trompetista desde 11 anos, começou a tocar na igreja da capital Luanda, ao lado do pai, regente do coral. “Somos sete filhos, e quem não toca, canta”, disse o músico, que neste ano, após perder a mãe, trouxe a irmã de 16 anos – Iara Quienzala – para estudar no Conservatório de Música Cora Pavan Caparelli.
O violino só entrou na vida do angolano em Uberlândia, para onde se mudou em 2006, a fim de estudar no conservatório e na faculdade de música da UFU. O menino que sonhou ser professor de música em seu país realizou o sonho com os alunos do projeto: “Eu faltava pagar aos meninos para aprender a tocar trompete comigo. Hoje vivo exclusivamente da música. Sou professor no Centro Cultural Alvorada e no conservatório. É maravilhoso ensinar”, afirmou.
Orgulho dos pais
As irmãs Amanda, 8 anos, e Denise Alves, 10, choraram quando, há quatro meses, souberam que a mãe as tiraria da aula de violino da Orquestra Jovem. Empregada como agente de saúde, Ana Paula Alves da Silva ficou impossibilitada de levar as filhas à escola de música: “Já tem três anos que elas fazem violino, tocam bem, mas eu fiquei com medo de deixar as duas irem sozinhas. Porém, minha vizinha se ofereceu para levar”.
Com o dinheiro do novo emprego, a agente de saúde disse que vai comprar um violino para as filhas dividirem. Coruja, ela não perde uma apresentação e disse que, com as aulas, as meninas melhoraram a disciplina. “Elas não são desobedientes, mas a mais velha conversava muito na escola. Parou. É muita emoção ver minhas filhas tocando. Elas adoram o professor Afonso”, disse a moradora do Zaire Rezende.
É ainda na Orquestra Jovem que as meninas ganham um lanche: suco com pão e manteiga. “Para muitos deles é que o que tem para comer antes de ir para escola regular”, disse a voluntária Efigênia Oliveira.
Informações e doações:
Rua Maria Augusta de Morais, 92, bairro Alvorada
Telefone de contato: 3216-6425
Aulas de segunda a sexta-feira, de 8h as 11h e 13h as 17h45
Não há vagas no momento, mas os interessados podem ficar em lista de espera.
Núbia Mota
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