quarta-feira, 9 de maio de 2012

Entrevista com Saulo Javan (baixo-barítono) pelo Guia Erudito

 Saulo Javan

Em 2012 apresentou-se com a OSESP sob a regência de Isaac Karabtchevsky na Sinfonia X de Villa-Lobos. Foi Padre José na Magdalena, também de Villa-Lobos, abrindo a Temporada Oficial do Theatro Municipal de São Paulo. Em Il Barbiere di Siviglia foi Dr Bartolo na cidade de Chapecó - SC, ocasião da primeira montagem de ópera nesta cidade com a Cia de ópera de Florianópolis. Foi Don Pasquale na opera homônima , Dulcamara em O Elixir do Amor, Don Bartolo em O Barbeiro de Sevilha, Frei Lefevre em Romeu e Julieta, Sacristão na Tosca, Barão Zeta em A Viúva Alegre, Ramphis em Aida, entre outros. Integrou o elenco da CIA Brasileira de Ópera no papel de D. Bartolo na opera O Barbeiro de Sevilha, em turnê por todo o Brasil. No XII Festival Virtuosi no Recife, apresentou-se na primeira récita nacional da Ópera Dulcinéia e Trancoso de Eli-Eri Moura. Participou da ópera Salomé de Richard Strauss com OSESP na Sala São Paulo. Em seu repertório sinfônico destacam-se interpretações como Rückert Lieder de Mahler , Petite Messe Solennelle de Rossini, sob a regência de Naomi Munakata, na Sala São Paulo, Requiem de Mozart, Zigeunerlieder e Quatro canções sérias de Brahms. Foi vencedor do XIX Concurso Nacional de Canto Heitor Villa-Lobos, em Araçatuba em 2002. Saulo iniciou seus estudos musicais e de canto com Carmo Barbosa e hoje está sob orientação de Marconi Araujo.

Guia Erudito: Qual foi o momento que você considera mais marcante em sua carreira?
Saulo Javan: Dentre tantos, claro que é difícil escolher um, mas eu diria que até hoje foi quando eu pisei no palco do Theatro São Pedro em São Paulo para ser dirigido pelo sensacional Enzo Dara, quando fiz o papel de Don Pasquale e com um elenco dos sonhos: Rosana Lamosa, Fernando Portari e Douglas Hahn.

Ser dirigido por um cantor que fez mais de 400 vezes aquele papel pelo mundo foi mágico!
G.E.: Como você está vendo a trajetória da música erudita no Brasil?

S.J.: Eu sou uma pessoa otimista por natureza e vejo um momento em que muita coisa legal está acontecendo! Temos muitas montagens este ano. Claro que há espaço, público, cantores, maestros, orquestras, diretores e cenotécnicos para no mínimo o dobro, mas se pensarmos em um passado próximo, as coisas estão realmente melhorando.
G.E.: Você sente falta de apoio para os projetos de música erudita em nosso país?

S.J.: Pois é, se eu vejo que a coisa está "aquecendo", seria incoerente dizer que não existe apoio aos projetos de música erudita, o que difere é o quanto vem para a música erudita e o quanto é destinado ao popular. Se conseguíssemos equilibrar melhor isso, todo mundo sairia ganhando.
G.E.: Cada vez temos mais cantores líricos no mercado e menos espaço tanto da mídia quanto das casas de concerto. O que você espera daqui pra frente?

S.J.: Olha eu vou comentar alguns projetos que estou sabendo e que estão acontecendo, não sei todos e desde já peço perdão se me esquecer de algum, mas observe isso:
São Paulo

Theatro Municipal de São Paulo - Começou 2012 com a ópera Magdalena , onde tive o privilégio de cantar, e ao mesmo tempo apresentou Pedro Malazarte. Depois fizeram La Traviata, com 11 récitas e três elencos. Tivemos Idomeneo, e ainda vem muita coisa: O Crepúsculo dos Deuses, Pelléas et Mélisande, Violanta, Tragédia Florentina, Macbeth e O Rouxinol. Não é o máximo?
Theatro São Pedro - Após a transição de OS e grandes mudanças, já anunciou 3 títulos fora os concertos, quando pensávamos que não teria mais nada este ano. As óperas anunciadas são: O Elixir do Amor, Lakmé e Werther.

Rio de Janeiro - Mesmo após o trágico episódio da explosão está voltando com A Viúva Alegre, La Traviata e Rigoletto.
Manaus - Está acontecendo agora o maravilhoso festival com Lulu, Tosca, I Puritani - no Brasil depois de 60 anos - A Flauta Mágica.

Belém - Teremos mais uma edição do festival de ópera. Ano passado cantei Tosca e foi um sucesso. Há um projeto para Salomé e outra ópera.
Brasília voltando com força total para a ópera, ainda sem muitos recursos mas já com La Bohème e Carmen.

Olha que legal isto, em Santa Catarina tem uma cia. de ópera que sob o comando do maestro Jeferson Della Rocca tem feito um trabalho pioneiro, não somente em montagens de ópera como em levar a ópera para cidades onde nunca uma montagem de ópera havia estado. Recentemente cantamos em Chapecó, em um teatro maravilhoso de 1.000 lugares a ópera O Barbeiro de Sevilha, com lotação absoluta e sucesso, mesmo em dia de jogo do Chapecó, (risos), foi sensacional!
Nasce este ano em Fortaleza a Cia. Experimental de Música Erudita sob o comando de Vitor Philomeno e em junho montaremos a ópera Semele de Haendel e muitas novidades ainda.

Santo André e Aracaju que farão concertos encenados da ópera Tosca.
E estou falando somente de ópera e nem mencionando os concertos com canto, este ano fiz parte do projeto de resgate e registro de obras de Heitor Villa-Lobos com a Osesp sob regência do maestro Isaac Karabtchevsky, com gravação marcada para 2013.

Como não ser otimista e esperançoso? O que precisamos também é arregaçar as mangas e espalhar o que estamos fazendo o que está sendo feito para que mais pessoas da população saibam que existe sim músicos e música de qualidade acontecendo no Brasil.
Se na mídia esta programação não está sendo amplamente divulgada, podemos fazer a nossa parte ao menos compartilhando o que faremos e sabemos que vai acontecer para nossos amigos e parceiros, nem que seja somente em nosso perfis de facebook, com certeza já fará diferença.

G.E.: A idéia da Cia Brasileira de Ópera foi muito interessante, pois possibilitou levar a ópera ao Brasil inteiro, de uma forma acessível e produtiva. O que você achou desta empreitada?
S.J.: Um sonho! O Brasileiro adora ópera, fomos super bem recebidos em todas as cidades! Temos cantores maravilhosos pelo Brasil inteiro e teatros lindos. Mais uma vez, senti-me privilegiado por fazer parte da história da ópera no Brasil com a Cia. Brasileira de Ópera, um trabalho primoroso e pioneiro dos maestros John Neschling, Abel Rocha e Victor Hugo Toro, instrumentistas maravilhosos e cantores fantásticos e uma produção primorosa do José Roberto Walker. Esperamos que este maravilhoso projeto sobreviva às vontades políticas e continue a viajar pelo Brasil levando a ópera e dando oportunidade de trabalho para mais de 100 profissionais.

G.E.: Você recentemente participou da ópera Magdalena de Villa-Lobos, na abertura da Temporada 2012 do Theatro Municipal de São Paulo. Como foi esta participação?
S.J.: Foi um dos momentos mais incríveis da minha carreira, meu "debut" como solista no maravilhoso Theatro Municipal de São Paulo. No primeiro ensaio na cúpula do teatro, eu fiquei olhando para tudo aquilo, o coral lírico com aquelas vozes, meus colegas e claro, como um bom e genuíno pisciano, me emocionei muito! Sou muito grato e feliz!
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