segunda-feira, 7 de maio de 2012

Milton Nascimento — 50 anos de carreira


"Milton Nascimento — 50 anos de carreira" a turnê que começou no dia 21 passado em Juiz de Fora, chegou sábado a Belo Horizonte e se encerrará em outubro no Rio, com gravação de DVD. Como em 2012 também se completam os 40 anos do histórico álbum duplo "Clube da esquina" e os 70 anos do cantor (em 26 de outubro), a temporada tinha tudo para ser absolutamente festiva, mas Milton afasta  dos cálices com veemência:— Não vou falar dos meus 70 anos porque isso é um grande erro. Não tenho 70 anos, não conheço nenhum músico com 70 anos, artista não faz 70 anos. Eu tenho cara de 70 anos?
Queira ele ou não, a data redonda contribui para uma série de projetos em torno do seu nome: um livro reunindo todas as suas letras; uma biografia musical escrita pelo compositor Chico Amaral; e um espetáculo da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. Todas as iniciativas ressaltam o lugar singular de Milton na música brasileira, e não só pela voz privilegiada.
Ele conta que apenas em 1964, nove anos depois de formar seu primeiro conjunto musical (o Luar de Prata, com Wagner Tiso), decidiu começar a compor. Já tocava piano e contrabaixo há muito tempo. Levado por Márcio Borges para assistir a "Jules e Jim", de François Truffaut, saiu tão abalado após quatro sessões seguidas do filme que foi para a casa do amigo e os dois fizeram três músicas numa noite.

— O Marcinho tinha ficado uns três meses insistindo comigo e eu dizendo que não queria compor. Quando topei, a alegria ficou estampada na cara dele. Mas eu disse que tinha um negócio: "Não quero que as músicas que, por acaso, eu vier a compor se pareçam com nada. Vai ser uma coisa minha" — lembra Milton.
Se colegas de geração como Chico Buarque, Edu Lobo e Caetano Veloso põem a bossa nova como gênese de sua produção musical, Milton já se iniciara nos bailes da vida quando João Gilberto apareceu com "Chega de saudade". Em Três Pontas, onde teve programa de rádio, ele ouvia rock e músicas italianas, francesas, espanholas. Ganhou uma bagagem grande e diversificada.

— Quando cheguei em Belo Horizonte (no início da década de 1960, fazendo a mudança definitiva em 1963), vi músicos de jazz tocando e pensei: "Vou ter que aprender tudo de novo". Mas me disseram: "Não mexe nas coisas que você faz, porque ninguém faz isso". A bossa nova serviu como estímulo para eu compor algo que não parecesse com nada de ninguém. Tom Jobim era o tal para mim e continua sendo — afirma.
Às canções jobinianas e a tudo o que já conhecia se somaram "Sketches of Spain", de Miles Davis, e os Beatles. No livro que está preparando, provisoriamente chamado "A música de Milton Nascimento", o mineiro Chico Amaral quer detalhar essas influências e mostrar como Milton fere a tal linha evolutiva da música brasileira — ao menos se vista como linha reta, de formação até a bossa nova e de modernização a partir dela, sendo o tropicalismo seu passo mais ousado.

— Há muitas inovações importantes que ficam praticamente fora dessa história, como o samba-jazz. E o primeiro disco de Milton (de 1967) foi com o Tamba Trio. Ele ainda incorporou manifestações rurais sem isolá-las das urbanas. Juntou Villa-Lobos, Beatles, Baden Powell, Nordeste. Sempre deu um passo além — diz Chico.
É quase senso comum que, sobretudo como compositor, Milton não manteve, a partir dos anos 1990, a força das décadas anteriores. Para Chico, "o declínio não é de Milton, mas da sociedade".

— Estamos na ressaca da cultura de massa. É um momento de saturação, em que se ouve muita música, mas ninguém para e escuta um disco com calma. Chico, Caetano, Milton continuam fazendo coisas importantes, mas não é como nos anos 1960, em que a sociedade participou de uma espécie de gênio coletivo — diz ele.
Parte do repertório da turnê de Milton vem da primeira fase da carreira: "Travessia", "Morro velho", "Canção do sal", "Vera Cruz". Outra estava em "Clube da esquina": "Cais", "San Vicente", "Nada será como antes". E há as músicas de Lô Borges ("Nuvem cigana", "Para Lennon e McCartney"), que fica no palco quase todo o tempo ao lado do amigo. Os dois pretendem montar outro show juntos apenas para marcar os 40 anos do disco. Inéditas, só em 2013.

— Tenho feito letras. Mas, quando engrenar de vez, vou chamar Márcio, Fernando (Brant) e Ronaldo (Bastos). Estamos meio parados, mas não separados nem brigados — avisa ele, sobre seus parceiros frequentes.
As novas criações serão incluídas no livro que o jornalista Danilo Nuha está preparando com as cerca de 60 letras já escritas por Milton — "Pai grande", "Canção do sal" etc. O lançamento está previsto para outubro pela Casa da Palavra.

Em 5 de agosto, no Teatro Net Rio - Sala Tereza Rachel, estreará "Milton Nascimento — Nada será como antes", musical que Charles Möeller e Claudio Botelho acalentam fazer há cinco anos.
— Serão 50 canções, 12 atores, seis músicos e um roteiro que trata as canções como pequenas peças de teatro, ou blocos de canções como cenas. Não é uma biografia, mas uma visão teatral da obra dele desde "Travessia" — conta o mineiro Claudio, que ouviu Milton pela primeira vez aos 12 anos, cantando "O que será (À flor da pele)", ao lado de Chico Buarque, no disco "Geraes". — Aquela voz desatou algo em mim que realmente mudou a vida. Acho que quem ouve o Milton pela primeira vez é imediatamente transformado por ele.
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