quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Crítica de Marcus Góes, Tosca do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Uma Pequena Porção.


Sempre que escrevo sobre a ópera TOSCA,  lembro, com incontido sorriso, que Sardou, autor da peça teatral em que se baseia a ópera, disse que os críticos são aquelas pobres criaturas que querem sempre saber o que é que ele Sardou vai fazer amanhã quando acordar…Victorien Sardou (1831-1908), famosíssimo e festejadíssimo teatrólogo francês do final do século XIX e início do século XX, escreveu várias peças em que o toque principal foi sempre a busca da teatralidade. “La Tosca”, criada em 1887 por Sarah Bernhardt, talvez seja a mais teatral de todas as suas peças.
Por isso, logo ao saber de sua existência, muitos compositores pensaram em transformá-la em uma ópera, e o mais famoso e bem sucedido destes foi Giacomo Puccini (1858-1924), e  TOSCA, como ópera, foi estreada em Roma em 1900, depois de muitas tratativas entre o compositor, os libretistas Luigi Illica e Giuseppe Giacosa e o próprio Victorien Sardou, tendo este tomado parte muito ativa nas adaptações da peça, nas palavras do libreto, nos cenários e figurinos e na encenação geral.
Isso tudo concedeu a TOSCA o título de ópera mais teatral já composta, segundo a opinião de quase todos os estudiosos, dividindo-o com “I Pagliacci” (1892), de Leoncavallo, “Carmen” (1875), de Bizet, e “Salomé” (1905), de Richard Strauss. Portanto, não só os que a cantam, mas os que a encenam e executam em seus instrumentos, têm de ter sempre em mente que estão usando suas capacidades artísticas tanto para a música e o canto quanto para o teatro. Esse terá sido certamente o motivo que levou Puccini a escolher como criadora da ópera no papel título o soprano Haryclé Darclée, afamada “attrice cantante”.
Na presente edição do TMRJ, a vocalidade dos três cantores principais, exibida no ato que vi,o soprano norte-americano Sondra Radvanovsky, de voz ampla, robusta e maleável, o tenor brasileiro Thiago Aracam, de agudos mais que convincentes, e o barítono espanhol Juan Pons, de voz expressiva mas carente de maior volume em certas passagens (baccano in chiesa,dimenticare Iddio), esteve quase sempre dentro da linha canto/teatro aconselhável.  Além disso, fora dessa relação canto/teatro, os três solistas principais cantaram muito bem no ato que presenciei, principalmente na partes em que se deseja sempre um robusto volume, com as exceções apontadas.
A parte cênica, dirigida por Carla Camurati, apesar de certas modernosidades tão em moda em nosso maior teatro, foi efetiva e agradável de se ver. Houve decerto bom aproveitamento das cenas mais teatrais de todo aquele ato, como a entrada de Scarpia, a “cantoria”, os enravecimentos de Tosca, a submissão de Spoletta, as gaiatices do Sacrristão.
O soprano Sondra tem voz ampla e maleável, plena de recursos de ffff´s, pppp´s, mezza voce e  alto teor dramático e o que vi e ouvi foi excelente.
A presença e atuação do regente Silvio Viegas à frente da OSTMRJ foram como sempre ponto alto do ato. Em Tosca, Puccini utilizou bizarras combinações instrumentais e variadíssimas aliterações rítmicas, e o regente Silvio Viegas, sensível como ele só, soube valorizar no ato que vi todos esses elementos a um grau máximo, inclusive nas muitas passagens de alternância de ffff’s e pppp’s.
Esse ato de TOSCA, prenúncio do que viria depois segundo a opinião de muitos experts, foi a melhor coisa que a regisseuse Carla Camurati realizou ao conduzir encenações de ópera. Pelo efetivíssimo e muito bonito primeiro ato que vi, aplaudo com entusiasmo, lamentando profundamente não ter visto tudo. Mas quem me contou como foi o que não vi entende muito do assunto…
MARCUS GÓES
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