segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

15 anos sem Eleazar de Carvalho


Há 15 anos, no dia 12 de setembro de 1996, falecia em São Paulo o maestro Eleazar de Carvalho, um dos mais importantes regentes brasileiros do século XX.
Nascido em Iguatu, interior do Ceará em 1912, filho de uma descendente de índios tabajaras e de um capitão do exército e pastor presbiteriano, Eleazar de Carvalho dizia que devido ao seu gênio ’inquieto’ seu pai o mandara, aos 11 anos de idade, para a Marinha, o que na época equivalia a uma escola correcional. Foi na banda da escola que a ligação com a música começou. “Observei que a comida servida às crianças que tocavam na banda era melhor. Apresentei-me embora não tocasse qualquer instrumento. Sou músico por gulodice...”

Tocou tuba em diversas corporações da Marinha. Em 1928, já no Rio de Janeiro, estudava solfejo e harmonia e participava da Banda dos Fuzileiros Navais. No ano seguinte, fez concurso para a Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Para prestar o concurso teve que sair da Marinha e perder todos os direitos adquiridos. Passou a tocar na orquestra e segundo ele “em quase todos os bailes”. Fazia parte do American Jazz, com Almirante, Donga e Pixinguinha e estudava regência com Francisco Mignone na Escola de Música do Rio de Janeiro. Terminado o curso compôs a ópera O Descobrimento do Brasil que estreou no Municipal do Rio em 11 de junho de 1939, regida pelo autor.
Naquela época, a visita de Toscanini ao Brasil com a Orquestra da NBC entusiasmou os professores da Escola de Música do Rio de Janeiro. Eleazar e alguns companheiros arregimentaram músicos nas escolas do Rio, que estavam repletas de bons profissionais refugiados da guerra. Assim, foi formada a Orquestra Sinfônica Brasileira regida pelo húngaro Szenkar e tendo Eleazar de Carvalho como assistente.
“Desde 45, a ideia de ir para os Estados Unidos me dominava. E em 46, ao ser apresentado ao Ministro João Alberto que me ofereceu a possibilidade de ser apresentado na América, percebi que havia chegado a hora.”
O Maestro chegou aos Estados Unidos disposto a reger uma das 3 grandes orquestras americanas: Boston, Filadélfia ou Nova York . Foi recebido com o maior ceticismo e chamado de maluco. Depois de bater em muitas portas, finalmente recebeu um convite para reger no Carnegie Hall, mas, dizia o maestro, era um convite e uma maldição. “Na frente do prédio iria a minha foto vestido de índio! Não aceito, respondi desapontado. E acrescentei: há muito tempo não visto tanga.”
Procurou em seguida ninguém menos que Eugene Ormandy, regente da Philadelphia Symphony Orchestra, e recebeu dele um conselho – Vá para o Arizona. Você precisará de 15 ou 20 anos para chegar aqui!
Mas Eleazar de Carvalho não estava disposto a esperar tanto. Informado que Sergei Koussewitzky - um dos maiores nomes da música - era diretor de uma escola de regentes e estava ministrando cursos naquele momento em Tanglewood, decidiu procurá-lo. No entanto, os cursos já estavam em andamento e o maestro não recebia ninguém. “A minha vontade era tanta que usei de um estratagema. Afirmei que trazia uma mensagem do presidente do Brasil e que esta deveria ser entregue ao mestre. Fui recebido. – E a mensagem? Perguntou Koussewitzky. – É verbal, senhor. E apesar da reação de surpresa, continuei. – Peço-lhe cinco minutos à frente da orquestra. Se julgar que não tenho qualquer possibilidade, voltarei e viverei da caça e da pesca no meu país” . Aceito, Eleazar teve em Koussewitzky o mestre que marcou sua vida e sua carreira.

Em 1947, tornou-se assistente de Koussewitzky junto a Leonard Bernstein e regeu pela primeira vez a Sinfônica de Boston apenas um ano após ter chegado aos Estados Unidos. Desta experiência Eleazar guardava uma lembrança:
“Confesso que não consegui me calar. Enviei a Ormandy uma cópia do meu contrato e dois ingressos acompanhados de um cartão meu onde escrevi: Veja onde já estou!” De Boston foi para Chicago e Nova York e meses depois foi chamado para substituir Charles Munch que adoecera e regeu assim a Philadelphia Symphony Orchestra, a orquestra de Ormandy. Em 1951, um ano após a morte de Koussewitzky, assumiu a cátedra de Regência do Berkshire Music Center que dirigiu durante 16 anos. Naquele período, assumiu a direção da Saint Louis Symphony Orchestra que dirigiu por 10 anos e onde regeu mais de 1000 concertos. Já consagrado como maestro, dirigiu a Pro Arte Symphony Orchestra em Nova York de 68 a 73.
Como professor percorreu as principais instituições americanas. Lecionou regência na Washington University, Hofstra University, Tampa University, Juilliard School of Music e foi também professor por vários anos da Yale University, onde recebeu o título de Professor Emeritus. Muitos dos seus alunos dirigem grandes orquestras pelo mundo, entre eles, Claudio Abbado, Zubin Metha, Seiji Osawa, Gustav Meier, David Wooldbridge, Harold Faberman e Charles Dutoit.
Nos quarenta anos seguintes Eleazar de Carvalho esteve à frente das principais orquestras do mundo. As Filarmônicas de Berlim e de Viena e praticamente todas as grandes orquestras europeias foram regidas por ele em programas que em geral incluem peças brasileiras, principalmente de Villa-Lobos. Dirigiu durante seis semanas a Filarmônica de Israel em sua primeira excursão aos Estados Unidos.
Mas o seu principal compromisso sempre foi a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Fundada em 1954 e logo desativada a Osesp só ganhou vida a partir de junho de 1973 reorganizada por Eleazar de Carvalho. À frente da sua orquestra, que dirigiu até morrer, o maestro dedicou o melhor dos seus esforços. O desafio de criar em São Paulo uma orquestra do mesmo nível das orquestras internacionais que dirigira sempre foi o seu objetivo. Apesar dos esforços nem sempre obteve o apoio necessário e a Osesp muitas vezes tocou em espaços improvisados e sem as melhores condições. No final de sua vida quando as forças já lhe faltavam teve ainda energia suficiente para traçar as diretrizes da restruturação da Osesp e reger o primeiro concerto da orquestra na Estação Júlio Prestes. Não conseguiu realizar o sonho ver a orquestra numa sala à sua altura. Deu, porém, os passos decisivos para que isto acontecesse
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