segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A obra para piano de Schubert (Parte I)


Apesar de ter ainda muito jovem aprendido a tocar violino, era no piano que Schubert encontrava seu verdadeiro refúgio
“Nossos pianistas não têm ideia dos belos tesouros que contêm as composições de Schubert para piano. A maioria dos executantes as examina ‘en passant’ e, observando aqui e ali repetições, passagens longas e outros detalhes que atribuem levianamente a uma falta de cuidado do compositor, deixam as partituras imediatamente de lado. Como um pássaro no ar, Schubert viveu na música e cantou as canções mais celestiais.”

Estes comentários de Liszt refletem a profunda admiração que o genial músico húngaro dedicava às obras para piano de Schubert, numa época em que estas eram ainda quase totalmente desconhecidas.

Apesar de ter ainda muito jovem aprendido a tocar violino, era no piano que Schubert encontrava seu verdadeiro refúgio. O piano foi utilizado pelo mestre austríaco em mais da metade das composições que compõem seu vasto catálogo musical, tanto na elaboração de obras solo, como também como ativo instrumento colaborador nas numerosas canções e diversas peças camerísticas.

Encontramos na extensa produção pianística de Schubert as principais características de seu gênio criador, que se traduzem musicalmente em obras alentadas, de um romantismo interiorizado, tom de confidência e envolvente fantasia.

A fecundidade de Schubert é verdadeiramente prodigiosa. Tendo vivido somente 31 anos, deixou mais de 600 canções, quase 20 óperas e cenas musicais, numerosas obras camerísticas, entre as quais vinte quartetos de cordas e dois quintetos, um dos quais com piano, oito sinfonias, um octeto, missas, oratórios e peças sacras, além de uma gigantesca obra para piano solo e para piano a quatro mãos.

Assim como Mozart, Schubert compunha com espantosa facilidade. A espontaneidade é sua maior virtude: idéias musicais que se encadeiam muito naturalmente, de modo perfeito, puro e às vezes até mesmo ingênuo. Entretanto, convivem ao lado dessa beleza aparentemente inocente e simples diversos elementos de expressão trágica e de alta dramaticidade.

A produção de Schubert para piano solo pode ser dividida em três grupos distintos de obras: as sonatas, a Grande fantasia e o grupo de improvisos, momentos musicais, variações e peças diversas.

As sonatas representam uma significativa parte da criação schubertiana para piano. Das 22 obras relacionadas por Erich Deutsch (1883-1967) no catálogo que elaborou das obras de Schubert, somente 11 estão completas (alguns movimentos não foram localizados e o compositor não concluiu diversos manuscritos). As sonatas contêm movimentos de suprema beleza, nos quais se evidencia a fertilidade de ideias do autor, assim como modulações de rara felicidade e um tratamento harmônico surpreendente. Na abordagem da forma Sonata, Schubert encontra frequentemente dificuldade em conter a torrente de temas que povoam sua imaginação, o que resulta muitas vezes em obras desproporcionais, compostas de “mosaicos” e poucas vezes completamente satisfatórias no conjunto, devido à falta de concisão.

Muitos autores enalteceram em Schubert “a divina extensão” de suas alentadas composições; entretanto, é preciso ressaltar que a “pequena” Sonata em lá maior D 664 não poderia ser mais compacta em seu três movimentos e, do mesmo modo, o primeiro movimento da Sonata em lá menor D 845 é uma das mais integradas estruturas de sonata de toda a história da música.


Do ciclo das sonatas, destacam-se especialmente as três últimas obras, escritas em 1828, ano da morte do compositor. Schubert atinge o ponto máximo de seu ciclo de sonatas com a Sonata em si bemol maior D 960, um dos marcos da literatura pianística de todos os tempos.

Amaral Vieira
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