quarta-feira, 9 de outubro de 2013

'Coro não terá cortes' - Neschling defende união de grupos e nega que ela levará a demissões

 


Perfis falsos em redes sociais, acusações de desvalorização do artista brasileiro, suspeitas de sabotagem, abaixo-assinados - não estiveram livres de polêmicas os primeiros dez meses de John Neschling como diretor artístico do Teatro Municipal. Na entrevista a seguir ao Estado, concedida ao lado do diretor geral da fundação, José Luiz Herencia - para quem as críticas internas "são facilmente localizadas e não representam o apoio que a nova gestão tem recebido de artistas e funcionários excepcionais" -, o maestro atribuiu as polêmicas à resistência de algumas pessoas à profissionalização do Municipal.

MUDANÇAS NA ORQUESTRA

"Nos últimos dez meses de trabalho, observei a orquestra sem tomar atitudes. Depois, chamei os músicos para que eles assumissem a responsabilidade pelo futuro do grupo. Chamei os líderes de naipe e, depois, seus integrantes, individualmente. E, juntos, decidimos se havia alguns poucos elementos que precisariam ser substituídos. Todas as decisões foram tomadas em conjunto. Os nomes dos nove músicos que serão afastados no final do ano, ao fim do contrato, foram discutidos pelos colegas. Não podemos ter ninguém mais ou menos tocando. E a orquestra, em um gesto de coragem e maturidade, refletiu e chegou à conclusão de que era preciso mudar. Este é um movimento único, não será refeito daqui a um, dois anos. E os músicos que forem afastados, assim como os que atuam como convidados, podem se preparar e fazer testes para voltar à orquestra."


UNIÃO DO CORAL LÍRICO COM O CORAL PAULISTANO

"A sugestão de união dos coros tem recebido duas críticas. A primeira é histórica, pelo fato de ele ter sido criado por Mário de Andrade para valorizar a música brasileira. Mas o Coral Paulistano não tem se empenhado, nos últimos anos, a fazer isso. O historicismo puro e simples é algo calcificado e, se você se prende a ele, vira estátua de sal. Eu não tenho nada contra a música brasileira, muito pelo contrário. O que não dá é manter um coro de 38 pessoas em um teatro de ópera, fazendo concertos que nada têm a ver com a vocação do Municipal. Isso não é viável. Não estou acabando com uma entidade que marca a cidade de modo indelével, não estou agredindo a música brasileira. Aliás, não estou acabando com nada, estou propondo a união dos dois coros, o que levará a novas possibilidades. E posso garantir que, nessa junção, não haverá demissões."

                             
RESISTÊNCIAS
"Fomos chamados, eu e Herencia, pelo prefeito e pelo secretário de Cultura para assumir um teatro que, na nossa opinião, não ia tão bem assim. Para modernizar o Municipal, estamos enfrentando um status quo de 100, 50, 25 anos. É uma situação entranhada, e qualquer mudança, artística, administrativa ou financeira, cria antagonismos de pessoas que estavam felizes com o jeito como as coisas estavam. A mudança foi um desejo de governo, não meu. Tudo o que fazemos é confrontado com uma quase histeria. Independentemente do que propomos, são contra. Estamos certos do que queremos, mas seria bom não ter que enfrentar o descontrole de oposições sem cara e sem fundamento."

DESVALORIZAÇÃO DOS ARTISTAS BRASILEIROS
"Pretendo deixar o Municipal funcionando como um teatro moderno, sem xenofobias, sem chauvinismos, sem funcionalismos que atrapalham, sem perrengues internos. Para isso, a gente mexe em tudo, não é só no coro, na orquestra, na parte técnica. E estamos encontrando em todos esses departamentos pequenos quistos de resistência. Eles estão aí há 50 anos e vão ficar mais 50 se não fizermos a opção hoje de mudar e transformar o teatro. Agora, na nossa próxima produção, com Cavalleria Rusticana e Jupyra, que, aliás, é de um compositor brasileiro, Francisco Braga, há apenas dois artistas de fora, duas sopranos, porque as duas brasileiras que eu havia chamado desistiram. Não há nada contra os artistas nacionais. O que há é o desejo de dar ao Municipal um departamento artístico de nível internacional, aberto, cosmopolita, interessado, que agregue, chame pessoas de fora. A oposição vem de pessoas que se sentem incomodadas com essa nova estrutura. Mas o governo quer fazer, e acredito que estamos, sim, no caminho certo. A história vai dizer."


SUBSTITUIÇÕES NA ÁREA TÉCNICA

"O teatro estava desequipado - e também no que diz respeito a pessoal. Tem gente muito boa, mas também tinha gente que não trabalhava, vinha uma vez por semana e pronto. O Municipal precisa criar uma estrutura técnica, não pode continuar a fazer o que era feito em outras gestões, como entregar toda a produção de uma ópera a um produtor externo. Não havia departamento de figuração, de figurinos, equipamento de iluminação, assistentes de direção, pianistas ensaiadores. Faltava o básico para o funcionamento de um teatro de ópera que pretende fazer 95 récitas no ano que vem."
                                                
CONTRATOS

"Chega dessa história de 'deixa como está para ver como fica'. Quando assumimos, as pessoas reclamavam que tinham contratos frágeis de trabalho. A partir de janeiro, todos serão contratados por CLT. E, agora, alguns artistas e técnicos nos procuram com medo de demissão. O que acontece é justamente o contrário! É mais fácil demitir eles agora, uma vez que os contratos são temporários, frágeis. Na maior parte dos casos, não seria nem demissão, bastaria não renovar contratos. Além disso, a partir de janeiro, todos passam a ter direitos trabalhistas, férias, décimo terceiro salário. Agora, com isso, uma pequena parcela começa a nos atacar, com medo da exigência de qualidade, da assiduidade. E querem desconstruir o projeto."


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