quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Cadê o índio que estava aqui? Importante crítica sobre a produção literária brasileira na visão da Feira do Livro de Frankurt Alemanha

 

A Feira do Livro de Frankfurt abre na quarta-feira (dia 9) com os alemães procurando índios e pretos entre os 70 escritores que formam a delegação oficial do Brasil, país homenageado. A culpa é de quem inventou o slogan A land full of voices (“Uma terra cheia de vozes”), que faz o compenetrado espírito teutônico supor, kantianamente, que um país continental e multiétnico em suposto crescimento deve se traduzir numa literatura marcada pela diversidade. Esqueceram de avisar a eles que aqui tem voz a dar com o pau, mas que só poucos podem e sabem falar. E que o suposto equívoco no perfil da delegação brasileira – branca, urbana, predominantemente do sul do país – é um acerto involuntário, quase um ato falho da curadoria: Entschuldigung, meine Freunde, a gente é assim. Mas é limpinho.
A barafunda em torno do Brasil para alemão ler, muito bem retratada por Joselia Aguiar em reportagem publicada semana passada no Valor, é uma versão intelectual de pura chanchada, gênero tão genuinamente brasileiro. Por um lado, os alemães não se conformam de o Brasil ser o que é: na fantasia renovada sobre nós, o exotismo da mulata dá lugar à idealização de uma potência emergente mais justa socialmente e inquieta intelectualmente, tudo isso expressoem livros. Os brasileiros, por sua vez, não querem de jeito nenhum parecer o que são: a curadoria esconjura nossos males de origem invocando um cosmopolitismo de aeromoça, a quantidade de traduções no exterior (independentemente da importância das editoras ou da repercussão efetiva que isso tenha) e da quimérica universalidade de autores que hoje supostamente estão mais próximos de Philip Roth do que de Rubem Fonseca.
Enquanto isso, a Feira de Frankfurt trata do que interessa: ampliação de mercado. Abriu escritório no Brasil, na Índia e na China porque vê nestes três países novas oportunidades de negócio. Não esperemos, no entanto, uma voga mundial de autores chineses, indianos ou brasileiros: nesta brincadeira nós somos, isso sim, massas de consumidores potenciais para o jogo pesado do mercado editorial global. Como produtores, ou seja, autores, somos pouco mais do que simpáticos figurantes de festas simpáticas como a que acontece essa semana. Publicado, em sua maioria, por editoras minoritárias e circulando principalmente em meios universitários (e raramente entre os chamados leitores comuns), o escritor brasileiro hoje ungido pelo mercado global raramente é recompensado por ele.
Nessa equação perversa, a exceção, e há muito tempo, é Paulo Coelho, único tratado por Frankfurt sem a condescendência das efemérides – em 2009, foi dele o discurso de abertura da Feira. É um autor de fato internacionalizado, o que sempre foi um problema para a autoimagem de uma literatura que se tem em altíssima conta. Em 1998, com o Brasil homenageado pelo Salão do Livro de Paris, Coelho foi esnobado pela delegação oficial. Na abertura do evento, Jorge Amado, fidalgamente, o tomou pela mão e o fez cumprimentar Jacques Chirac.
Convidado do governo este ano, o autor de Diário de um mago cancelou sua participação na última hora em protesto pela não inclusão na lista de autores de grande sucesso comercial como Eduardo Sphor e Thalita Rebouças. Assim, numa clara provocação, recoloca um problema real para a curadoria: o retrato literário de um país que mal lê pode prescindir de autores de entretenimento lidos em larga escala? Por que, num panorama que se quer amplo, a ficção comercial diz menos que a vanguarda? Por que uma curadoria, pelas declarações que dá e as escolhas que faz, continua apostando na estultice de que escrever para poucos é necessariamente bom e escrever para muitos necessariamente ruim?
A presença brasileira em Frankfurt deve, portanto, ser tomada pelo que é: uma protocolar “homenagem” (aspas necessárias) da Feira a um mercado que de alguma forma interessa à comunidade internacional do livro. Já vi muitas dessas homenagens, sempre com a mesma fórmula: delegações declarando desfazer clichês e mostrar a literatura de seus países “como ela é”, pavilhões grandiosos para disputar a atenção do público e diversos debates, aos quais, na prática, pouca gente presta atenção. E não é para menos: trata-se de uma feira de negócios, e a maioria que circula por lá vive com a agenda repleta. Além do mais, é quase impossível fazer frente ao frenesi e às proporções mastodônticas dos pavilhões – uma vez vi Umberto Eco falando para um punhado de pessoas em meio à indiferença dos passantes nos quilométricos corredores.
No fim das contas, nada disso faz muita diferença para o escritor brasileiro. Pois os mesmos alemães que estão à procura dos índios se espantariam em saber que a grande dificuldade do escritor brasileiro não é ser publicado dignamente na França ou na Holanda, mas no Brasil. Que no fundo a maioria das grandes editoras brasileiras tem horror a jovens escritores brasileiros e pouca paciência para construir novos nomes brasileiros. Que os escritores brasileiros vivem hoje mais daquilo que recebem para participar de centenas de eventos literários nos quais há muito público e pouco ou nenhum leitor. Que os escritores brasileiros ganham os prêmios mais importantes de seu país e nem assim conseguem atingir um público mais expressivo. Que há escritores brasileiros que têm público mas não têm critica e, por isso, não vão a Frankfurt. Que o Brasil, em suma, pouco lê o Brasil.
Mas os alemães podem relaxar. Essas questões, pouco confortáveis, não fazem parte da celebração dos próximos dias, pois o brasileiro é essencialmente gentil e não está aí para estragar festa dos outros. 

Paulo Roberto Pires


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