terça-feira, 1 de outubro de 2013

Será o fim do sonho de Mário de Andrade?


Queridos amigos do Theatro Municipal de São Paulo, com muita preocupação escrevo este comentário no facebook. Graças a Deus não sou mais dependente do salário do Theatro, então posso expressar livremente minha opinião. Sei que em um local onde a fofoca e intriga reinam, não se joga com política e com a justiça se brinca menos ainda. Infelizmente na cultura brasileira quem manda hoje é a política e os vis interesses de alguns poucos. Reconheço no diretor John Neschling um dos maiores gestores do meio musical que o Brasil já teve. Essa história de fusão vem sendo comentada há mais de 15 anos e sempre foi refreada pelo bom senso e conscientização de que os grupos fazem trabalhos totalmente diferentes. Que o Theatro Municipal é uma casa de ópera ninguém pode contestar, mas, a partir disso, tornar obtusa as possibilidades artísticas e profissionais dos artistas da casa, limitando-os apenas à ópera é no mínimo intrigante e um retrocesso ao passado, pois hoje nas maiores casas do mundo se faz ópera, musical e gêneros do crossover para atrair cada vez mais ao público. Me faço a pergunta, será que o Maestro Neschling terá a mesma força política (isso quer dizer também apoio financeiro) para elevar o nível do TM da mesma maneira como feito junto a OSESP há alguns anos? As alianças políticas vêm e vão a bel prazer e aquilo que era hoje indissolúvel amanhã é apenas um efêmero rumor de algo bom feito no passado. Há que se ter muito cuidado e respeito por todos aqueles que doaram as suas vidas em prol da cultura brasileira, especialmente ao se referir a algo feito por Mario de Andrade, um ícone ímpar da cultura nacional. Reclama-se muito da ausência de memória cultural no Brasil, mas as lideranças são as primeiras a dispersar os bons frutos já colhidos e mantidos a tanto custo, e certamente o CORAL PAULISTANO é uma das maiores aquisições e representatividades da cultura erudita brasileira de todos os tempos. Acabar com este coral? Há soluções melhores? Provavelmente sim, porém, há que se fortalecer o interesse político e a conscientização de patrocinadores, gestores públicos e do próprio maestro Neschling. Ao se fundir coral lírico e coral paulistano em apenas um coro, parte da história de São Paulo e do Brasil estará sendo sepultada. O cantar em Português Brasileiro foi amplamente propalado por Mario de Andrade e Villa-Lobos no ápice de suas carreiras musicais, no auge do apoio político, por que este movimento inverso vindo de um dos maiores nomes da música brasileira, um homem visionário que reergueu a OSESP e seu respectivo coral? Realmente é de se estranhar tal movimento. Talvez a força política necessária ao estabelecimento de uma diretriz de qualificação mais elevada não tenha sido adquirida ainda, e quem sabe esta não é uma maneira de se adquirir tal aliança? Talvez a pressão política para se minimizar os gastos com a cultura esteja sendo demasiada para nosso querido Neschling, ou quem sabe para o bem estar de todos, este seria apenas um blefe para calar os possíveis "reclamões de plantão" que vivem criando caso por tudo dentro do Theatro? Rogo para que o maestro consiga fazer um plano diretor melhor ainda do que o feito pela OSESP, onde a iniciativa privada fazia parte tanto nas aquisições de ingressos, assinaturas e produtos gerados como CD, camisetas etc. Onde estão os patrocinadores do Theatro Municipal de São Paulo? Há grandes empresas no Brasil que certamente adorariam ter o nome vinculado a este símbolo cultural glorioso, em permuta, o salário de 40 artistas poderiam ser pagos facilmente, o que além de aumentar a visibilidade do Theatro iria desonerar os cofres públicos. Há que se levar em consideração que não se pode desviar verbas públicas para quaisquer interesses pessoais e escusos. Antes de mexer na estrutura humana dos corpos estáveis (mais instáveis do que nunca), deveria-se abrir a caixa de pandora e estudar-se por meio de muitas auditorias o quanto se gasta realmente para fazer uma ópera, pois dinheiro sempre teve e muito. Não temos uma programação como a do Metropolitan, com 5 óperas por semana, mas, pode-se ter uma quantidade maior de óperas, fazendo-se a permuta de espetáculos com outras casas de óperas. Ao final, desejo muita sorte a todos os cantores que doam suas vidas pela música e deixo o testemunho, sim, há vida após o TM e ela é muito boa. Estudem, façam de vocês os melhores músicos possível, o retorno do investimento do estudo é imediato. Um grande abraço a todos e os meus sinceros desejos de que soluções melhores apareçam para o Theatro Municipal de São Paulo, especialmente para o Coral Paulistano.

Adriano Pinheiro
Professor de Canto da Uniiversidade Federal de Pernanbuco
Tenor, integrou a quadro de cantores do Coral Paulistano do TMSP entre os anos de  1998 a 2010.
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