sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Temporada 2014 da Osesp traz muitos acertos - e alguns equívocos persistentes


Programação começa a diferenciar composição de arranjo, uma vitória depois de anos
Os números são grandiloquentes e a listagem dos solistas e regentes convidados está recheada de nomes rebrilhantes. Mas isso não constitui novidade. Há muito que comemorar na temporada 2014 da Osesp, mas por outros motivos. Em primeiro lugar, depois de anos, começa-se a dar os nomes certos às coisas. Boi é boi, cavalo é cavalo. Portanto, arranjo é arranjo, composição é composição. Assim, por exemplo, para comemorar o centenário de nascimento de Dorival Caymmi, a Osesp agora diz expressamente no material de divulgação que encomendou “um arranjo a Dori Caymmi para obra de Dorival Caymmi”, e não uma composição. E, além disso, encomendou obras a cinco compositores brasileiros. A balança começa a pender para o lado certo: três deles praticam e vivem profissionalmente da chamada música de invenção (Alexandre Lunsqui, Ronaldo Miranda e Celso Loureiro Chaves). Egberto Gismonti e Sérgio Assad preenchem de modo digno a cota de encomendas.
Mas ainda há desacertos. Lunsqui e Celso Chaves, por exemplo, escreverão respectivamente para coro e grupo de câmara, e piano e quarteto de cordas. Perdem eles uma rara chance de compor para orquestra; perde o público; perde a Osesp uma chance de abrir espaço para criadores brasileiros mais jovens. Miranda, único escalado para compor para orquestra, já é um veterano. Desnecessário, claro, é investir numa encomenda de um concerto para saxofone e orquestra a John Adams em parceria com Baltimore, Sidney e a Universidade Northwestern. Adams não precisa disso; e a Osesp deveria investir em compositores brasileiros – e não num nome consagrado como Adams. Não há nenhum mérito no que a Osesp chama orgulhosamente de “encomenda internacional”.
Marin Alsop rege 13 programas, praticamente um terço dos 37 concertos que compõem a temporada. Continua na média dos anos anteriores. Os compositores - visitante James MacMillan e transversal Leonard Bernstein - atendem a preferências do regente Celso Antunes e de Marin, respectivamente. Pelo andar da carruagem, Lenny, aliás, corre o risco de se transformar no compositor mais executado pela Osesp nos últimos anos.
Entre os solistas e regentes convidados para 2014, algumas surpresas muito bem-vindas. O pianista norte-americano Jeremy Denk (um raro músico que sabe pensar seu ofício com rigor, além de tocar muito bem, como o excepcional Stephen Hough); e a pianista Ursula Oppens (bastante familiarizada com a música contemporânea). Entre os regentes, Marcelo Lehninger, que, devidamente ungido pelo sucesso em Boston, só agora passa a frequentar mais o pódio da Sala São Paulo; e Andrew Manze, que pode ser a grande surpresa da temporada 2014 no reino das batutas.
Mas nem tudo são flores. O conceito de residência continua anêmico: só quatro programas para MacMillan, outros quatro para o pianista Bavouzet. Não é necessária tanta comemoração em torno da "integral da obra para piano e orquestra" de Stravinsky, que afinal cabe inteira em apenas um CD.
Devem todos na Sala São Paulo, por último, brindar com “flûtes” de champanhe a carona da Osesp nos 70 anos de Nelson Freire e nos dois CDs de estreia da orquestra no ilustríssimo selo Decca.
João Marcos Coelho - O Estado de S. Paulo
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