sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ópera no Theatro São Pedro, sempre tem alguém que atrapalha.

Charles Gounod

A obra teatral Romeu e Julieta, do dramaturgo inglês William Shakespeare, é transposta para a ópera pelo grande compositor Gounod. O amor e a morte encaixaram perfeitamente no gosto do romantismo do século XIX. Adaptar obras de Shakespeare é uma tarefa ingrata, a complexidade e a beleza dos personagens fazem muitos se perderem pelo caminho. Os quatro grandes duetos e uma música com um lirismo tipicamente francês faz a ópera ser tão grandiosa quanto ao original teatral. 
   O Theatro São Pedro escalou o que temos de melhor em matéria de elenco. Nomes de peso do cenário lírico nacional foram convidados para as récitas. Eles não decepcionaram. Fernando Portari conhece bem o papel de Romeo, já o vi cantar o mesmo no Teatro Municipal de São Paulo em 2005. Sua voz só melhorou, ganhou corpo e  potência. Lírica e consistente em todas as passagens e notas. Mostrou um Romeo apaixonado e sedutor. Alta qualidade em toda a récita.
  Tomei um baita susto com Rosana Lamosa, sua primeira entrada mostrou uma voz fria, sem cor. Lembrei de sua apresentação no Teatro Municipal de São Paulo e pensei , o que esta acontecendo ? Felizmente tudo se acertou na sua primeira grande ária. Sua emissão voltou ao normal, seus agudos brilhantes apareceram e toda a cor sedutora de sua voz nos emocionou. Sua última ária, do quarto ato foi empolgante, cantou com vontade, correu riscos, soltou a voz. Suas coloraturas tinham todas as nuances, sinais de cansaço são desprezíveis quando uma cantora se entrega dessa forma. Que seja um exemplo para os demais sopranos, não tenham medo de arriscar. Uma bela apresentação que emocionou demais. 
   A escolha dos comprimários foi acertada, todos em estado de graça. Leonardo Neiva esteve excelente como Mercutio. Uma voz segura, com grande beleza tímbrica. Saulo Javan mandou bem como Frere Laurente e a voz pequena e de belo timbre de Alzeny Nelo encantou a platéia.
   A leitura da partitura por Luis Gustavo Petri é de música extremamente forte nas cenas dos Capuletto e Montecchio e de delicadeza nas cenas entre Romeo e Juliette. A sonoridade soou volumosa demais nos atos ímpares e lírica nos pares, ouvem-se todas as nuances em detrimento das vozes dos cantores. Visão diferente e interessante da obra.
   Vinicius Torres Machado inventou moda, fez os coristas serem engraçados, em uma obra romântica, com movimentos esquisitos no primeiro ato. Todos mascarados como nos carnavais de Veneza, já ia me esquecendo, o romance se passa em Verona. Alguns jogam golfe, outros Basebol e os do fundo têm a roupa de açougueiro ensangüentada. Colocar os cantores pra se apresentar no meio da platéia já virou um clichê, a cama com o lençol vermelho é uma idéia comum. Falta de unidade na concepção, palhaços adentram as cenas sem a menor necessidade e um deles dá um grito ensurdecedor e anuncia o início do ato. Tudo sem nexo , que não contribui para o desenvolvimento do enredo. Depois falam que eu sou chato e ameaçam processo. Essa é a verdade nua e crua, uma concepção equivocada da obra.
   Os cenários são simples e funcionais, os figurinos oscilaram entre o interessante e o maluco e a luz regular. O início da ópera ,as 20:00 horas, fez com muitos se atrasassem, depois do primeiro ato o teatro lotou e todos se maravilharam com a grande música de Gounod. A tradição prevalece e os solistas vão receber os cumprimentos do respeitável público, todos se beijam e se abraçam em uma grande confraternização. Os mais empolgados tiram fotos para postar nas redes sociais, mas quem escreve crítica de ópera não tem nada a ver com isso. 

Ali Hassan
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