sexta-feira, 20 de setembro de 2013

1900, UM SÉCULO QUE ACABA QUANDO COMEÇA - Reflexões sobre 100 anos de música



Há semanas estive em Brasília, a convite do Ministério da Cultura, e depois dos assuntos tratados, assisti um concerto da Orquestra Sinfônica Simon Bolivar da Venezuela. Foi emocionante ver a qualidade, a segurança e a espontaneidade daqueles jovens músicos tocando a emblemática “Sagração da primavera” de Stravinsky, dirigida por Dudamel. Este conduzia de cor a obra com a nonchalance de como se estivesse interpretando Alma Llanera com seus pupilos. Seria algo parecido a estudantes de pintura reproduzirem com  perfeição, numa igreja da capital, o teto da Capela Sistina, oba de Michelangelo, que comparo à Sagração da Primavera em importância artística e histórica.

Essa música, que em 1940 se tornou trilha sonora de um antológico filme infantil de Walt Disney, Fantasia, agora é brilhante e bem-humoradamente executada por jovens, não assustando mais ninguém – bem diferente do que ocorreu no Théâtre des Champs-Élysée de Paris naquele 29 de maio de 1913. Apesar disso, parece que a feitiçaria na qual a obra se baseia contuinu provocando em mim serias perturbações. É com se eu a estivesse ouvndo pela primeira vez e com a repetida sensação de que, para além daquilo, não seria mais possível fazer música em nosso tempo. Algo parecido a sensação de Brahms ao ouvir a  Nona de Beethoven, o que lhe custou vinte anos de reflexões, inseguranças e angústias para compor sua primeira sinfonia.

Naquele início dos 1900, a agressão às avessas de Jeux de Debussy, desarmava por completo  pathos romântico já agonizante – obra estreada no mesmo teatro de Paris no qual duas semanas depois seria ouvida a première de Sagração. Sete meses antes , em Berlim, a primeira execução de Pierrot Lunaire de Shönberg, propunha a própria extinção da Tonalidade (vocabulário, gramática e forma musical do Ocidente). Para completar o quadro demulidor, a apresentação da composição de Stravinsky armava a mais estupenda confusão na mente das pessoas com sua cacofonia. Isso tudo prenunciava um século de grandes dificuldades para os caminhos da criação artística. Tanto é que os “ismos” de estilos que surgiram não chegaram a completar uma década. O pânico causado por essas obras e a própria hecatombe mundial de 1914 a 1918, talvez tenha levado artistas de todo o mundo a mergulhar num estranho neoclassicismo, em busca possivelmente, de apoios estético–filosóficos em meio àquele “caos”  dos códigos de comunicação espiritual.

No segundo pós-guerra houve  uma recuperação desenfreada do dodecafonismo dos anos 1920, de Shöenberg e Webern. Parece que mundo da música havia  encontrado “paz” e outra vez o espirituo de “vanguarda” numa linguagem de comunicação unificadora de mentes. Em países e regiões de culturas das mais diversas, escrevia-se música com uma lupa, uma pinça e uma calculadora...  Esse frenesi racionalista em, porém, não ultrapassou uma década, com a chegada dos explosivos anos 1960, que lançaram pelos ares com seus Happenings e aleatorismos.

A chegada da música eletrônica nessa época abria perspectivas infinitas. Pela primeira vez na história, o ser humano passava a fazer música sem que fosse raspando uma corda, assoprando um tubo ou batendo em um tambor. Os estúdios da rádio Colônia, Alemanha, viraram a vanguarda do mundo, motivando instalação de muitos outros em outros países. O que aparentava ser um manancial interminável de recursos para uma nova música, contudo, não encontrou uma dinâmica produtiva e de consumo regular, permanecendo como fenômeno no nível das experiências e curiosidades históricas da época.

O rock progressivo do final da década de 1960 tirou muito mais proveito do eletronismo, expandindo enormemente a nova linguagem popular oriunda dos sintetizadores, com Jimi Hendrix à frente. O “boom” criativo daquela música, porém, também não ultrapassou a umadécada. Na segunda metade dos anos 1970, a juventude que curtia estatelada no chão o som psicodélico das guitarras e teclados “envenenados”, levantou-se, abandonou as drogas e começou a dançar novamente, lembram-se do estilo chamado discoteque? Recuperou-se o “bate-estaca” sem sincopas e liberdade criadora transformando o eletronismo dos teclados, das guitarras e das percussões  na mais vulgar e redundante música pop, que perdura até hoje no grande mercado da música da cultura pop.

As últimas décadas do século XX confirmaram este estado de coisas. À medida que a tecnologia disparava usas investigações e descobertas, numa velocidade tal que o conhecimento humano na área chega a dobrar a cada dois anos, do ponto de vista artístico não se viram movimentos, vanguardas, nem de novas tendências. O delírio cultura da Belle époque e das duas primeiras décadas do século passado deu lugar ao frenesi tecnológico do início do século XXI. Os grandes conglomerados artísticos que formavam estilos no início do século XX foram substituídos por equipes anônimas e técnicos da atualidade. O feroísmo individual e reservado dos inventores de técnicos do início dos 1900 (Ford, Santos Dumont, Edison) foi substituído, nos dias que correm, por artistas desenvolvendo pesquisas herméticas e subjetivas.

Que tipo de fenômeno teria havido em Paris no palco do Théatre des Champs-Élysées naquele maio de 1913 entre os dias 14 e 29 de Jeux à Sagração de Primavera? Estive em Paris por ocasião das comemorações do centenário dessas fatídicas duas semanas. Fui ao Champs-Élisées. Andei por seus corredores, sua platéia, toquei naquele palco, fitei pessoas. Mas sai daquele “templo” mais perplexo que nunca. Parece que os anos passados não foram suficientes para entendermos o que ocorreu neste íntimo espaço de tempo, neste deslumbrante século da história humana...

Júlio Medaglia

Revista Concerto – junho de 2013 – Atrás da Pauta – p. 10
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