terça-feira, 17 de setembro de 2013

Festival de Brasilia começa fiel à sua tradição de debates


Mostra repete fórmula de segmentação total, levando ao excesso de prêmios, mas preserva vocação para o debate

Com Revelando Sebastião Salgado, de Betse de Paula, começa nesta terça, para convidados, o 46.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo evento do gênero no País. A longa entrevista realizada com o mais conhecido fotógrafo do País já foi apresentada no Festival de Gramado. Repete-se agora em Brasília nesta noite de gala que ocorre no Teatro Nacional Claudio Santoro. Uma cerimônia para a cidade, que conta ainda com apresentação de peças musicais pela Orquestra do Teatro Nacional. Amanhã, a mostra desloca-se para o – completamente reformado – Cine Brasília e tem início a disputa pelos Candangos, o troféu do festival.

Para 2013, Brasília repete a fórmula adotada no ano anterior – que pode ser definida como de segmentação total. Num momento em que o cinema trabalha, mais do que nunca, com fusão de linguagens, Brasília vai na contramão. Faz duas mostras separadas, cada qual com premiação própria – uma para longas de ficção, outra para documentários. Seis concorrentes em cada uma delas.

Na competição de curtas, a segmentação é ainda maior – ficção, documentário e animação. Esse anacronismo fica mais evidente num ano em que um documentário, Sacro Gra, venceu o Festival de Veneza, competindo com outros documentários, ficções e um longa de animação. Coisa semelhante acaba de se passar no recém-encerrado Cine Ceará, quando o doc basco >Emak Bakia levou o prêmio principal ao bater outros documentários e outras ficções.

Filme é filme. Colocá-los em seções separadas não os protege, apenas reforça guetos. Além disso, essa segmentação causa cerimônias caudalosas, pelo excesso de prêmios. Aliás, no fundo, a única função desse tipo de segmentação é aumentar o número de prêmios e assim contentar mais concorrentes.

Essa curadoria antiquada atrapalha, mas não deve tirar o brilho de uma competição que, a julgar pelos títulos, se anuncia interessante. Filmes como Riocorrente, de Paulo Sacramento, Avanti Popolo, de Michael Wahrman, Exilados no Vulcão, de Paula Gaitán, Depois da Chuva, de Claudio Marques/Marilia Hughes, Morro dos Prazeres, de Maria Augusta Ramos, Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry, Outro Sertão, de Adriana Jacobsen/Soraia Vilela, Plano B, de Getsemane Silva, entre outros, devem proporcionar material crítico para reflexão sobre o atual cinema brasileiro. Afinal, Brasília, ao longo de sua história, começada em 1965, sempre se caracterizou pela reflexão e pelo debate.

Entre os selecionados, Brasília teve de enfrentar uma defecção este ano – depois de A Estrada 47, de Vicente Ferraz, ter sido anunciado como um dos concorrentes, seus produtores, cooptados pelo Festival do Rio (que exigiu ineditismo), retiraram o filme de Brasília. Foi substituído por Amor, Plástico e Barulho, da pernambucana Renata Pinheiro. No entanto, a mesma Première Brasil, do Festival do Rio, vai exibir o vencedor de Gramado, Tatuagem, de Hilton Lacerda, e Os Amigos, de Lina Chamie, que também competiu na serra gaúcha, mês passado. Dois pesos, duas medidas.

Da mesma forma, Brasília teve de aceitar a quebra de ineditismo de Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry, que tinha compromisso de fazer uma primeira apresentação em seu Estado natal e fechou, fora de concurso, o Cine Ceará. As relações entre festivais estão longe de serem pacíficas. Na disputa por títulos inéditos, ou seminovos, vale (quase) tudo.


Além dos debates em profundidade dos filmes, outra tradição de Brasília são seus seminários. Serão quatro, este ano. Em Olhares Multiculturais e o Cinema Brasileiro no Exterior examina-se o relacionamento entre culturas cinematográficas. Humor e Comicidade tenta dar tratamento menos intuitivo ao fenômeno de bilheteria das comédias à brasileira. Cinema em Alto e Bom Som estuda o uso da música nos filmes. E Estratégias de Desenvolvimento de Pequenas Empresas do Audiovisual volta-se para o lado mais, digamos, negocial. Os seminários reúnem nomes como o brasilianista Randal Johnson, o ensaísta brasileiro radicado na França Paulo Paranaguá, o crítico italiano Gian Luigi De Rosa, o músico David Tygel, o diretor Walter Carvalho e o historiador Elias Thomé Saliba, autor do livro Raízes do Riso>. Com tantos filmes e atividades, o dia precisaria ter pelo menos 48 horas durante o Festival de Brasília.
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