sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O Continuum entre Bach e Chopin


 

Um extenso tratado poderia ter sido escrito a respeito da influência de Bach sobre os românticos. Existe, sem sombra de dúvidas, um continuum entre Bach e Chopin.

Frederic F. Chopin (1810-1849) parece ter sido o último “Bach” dos românticos. Polonês e francês, vindo do catolicismo europeu, ele escreveu quase que exclusivamente para o piano, um instrumento que se tornou dominante somente após a morte de Bach. Este, por sua vez, era um alemão burguês com uma bagagem e uma educação luteranos.  Bach era um artesão cujo trabalho estava enraizado na sua comunidade e tinha uma visão organizada do universo, o que era refletido em seu trabalho escultural. Chopin era um exilado, um artista sem raízes, que levava uma vida desregrada e boêmia.  

Johann S. Bach (1685-1750) era contrapontístico por excelência e trabalhava ligado à multiplicidade da forma. A música de Chopin é pessoal, de pequena escala, melódica e harmônica ao mesmo tempo, ligada a sentimentos e estados de espírito. Chopin costumava aquecer os seus dedos, todos os dias, tocando O Cravo Bem Temperado. Em 1839 ele publicou uma coleção de 24 prelúdios abrangendo as 12 tonalidades maiores e menores. Bach fez o mesmo.  

Na verdade existe um continuum que liga Bach a Chopin. Bach foi um defensor ardente do “sistema bem temperado” (ou de temperamento igual) para os instrumentos de teclado. Ele superou, de longe, seus contemporâneos na habilidade de incorporar expressivas notas “erradas” e acordes dissonantes nas suas composições. Sua técnica cromática, hoje tida como moderna, foi adotada por seu filho Carl Philipp Emmanuel Bach. Isso passou a ser um dos princípios dos primeiros românticos e Chopin foi o maior e mais original expoente deles, na primeira metade do século XIX. Nada disso seria possível sem o “temperamento igual”. “O Cravo Bem Temperado” difere do caráter dos “Estudos” (Études)de Chopin, principalmente no que diz respeito aos prelúdios mas, com toda a certeza, Chopin tinha em mente os prelúdios do Cravo Bem Temperado quando compilou os seus próprios prelúdios nesse livro.   

Bach organizava sua vida passo por passo, como numa escala cromática. Já Chopin tinha uma vida parecida com o “círculo das quintas”: as maiores e menores são colocadas juntas não por pertencerem à mesma tonalidade (como vemos em Bach), mas por pertencerem ao grupo de bemóis ou ao grupo de sustenidos na armadura de clave (como vemos em Chopin). 
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