sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Concertos para corpo e fotografia



Coleção de fotografias históricas que documentam happenings e performances é apresentada em galeria paulistana.

Yves Klein foi um pintor francês ativo durante a década de 1950 e, como outros de sua geração, sintetizou sua expressão em trabalhos monocromáticos. Klein buscou a redução e a simplificação da obra de arte ao ponto de "desmaterializá-la". Em 1960, no afã de sua busca pelo vazio, começou a pintar utilizando corpos femininos como pincéis.

O objeto de sua pintura passou a ser o rastro de tinta de corpos ausentes. As pinturas foram intituladas "Antropometrias" e a performance para realizá-las tornou-se uma obra em si. Embora o que estivesse na mira de Klein fosse a desmaterialização do objeto artístico no ato efêmero do gesto corporal, paradoxalmente, as fotografias que registram seus happenings ganharam status de obras de arte. Tornaram-se um gênero em si, praticado intensamente, cultuado por colecionadores e valorizado no mercado. Hoje, a exibição de uma importante coleção de 110 fotos de performances realizadas entre os anos 1950 e 1980, na galeria Jaqueline Martins, em São Paulo, dá a exata dimensão e a amplitude que essa expressão teve e tem em todo o mundo.

As "Antropometrias" (1960-1962) são um marco da fotografia de performance. As imagens de Klein supervisionando a atuação de suas modelos lambuzadas de tinta azul ao som da orquestra executando "A Sinfonia Monotônica", de uma nota só, estão entre as mais antigas da coleção apresentada na exposição "O Corpo Expandido". Anterior a elas, só a imagem de Salvador Dalí e Georges Mathieu, de 1958, em procissão com uma baguete de 15 metros. Depois delas, há uma sucessão imperdível de clássicos do gênero, como Charlotte Moorman tocando um violoncelo criado por Nam June Paik, com três televisores empilhados. A performance sonora "Concert for TV Cello" (1974) é um momento histórico da experimentação de novas mídias pela arte contemporânea. Conectados a uma câmera filmadora, os três televisores transmitiam a imagem da artista em ação, tocando seu instrumento composto por um circuito fechado de vídeo.

As fotografias têm enormes variações de conteúdo. Algumas documentam performances individuais de risco, como as de Hermann Nitsch ou de Ulay, ex-companheiro de Marina Abramovic. Outras valorizam ações coletivas em espaços naturais, como os trabalhos de Franz Erhard Walther, que promove interconexões entre vários corpos - como Lygia Clark fazia no Brasil. Em comum, elas promovem férteis entrecruzamentos de linguagens: fotografia, música, poesia, pintura, escultura, etc. As fotografias de "O Corpo Expandido" pertencem à coleção dos italianos Giuseppe Casetti e Giorgio Maffei e foram apresentadas no início do ano na filial romana do Museu do Louvre. "Foram mais de 12 meses negociando para conseguir mostrar na galeria. Eu quase desisti. Mas, enfim, deu certo e estou feliz e honrada em mostrar esse material", diz a galerista Jaqueline Martins. 

O Corpo Expandido/ Galeria Jaqueline Martins, SP/ até 30/9

 
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