sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ariano Suassuna inaugura 1ª edição da Flupp


 Aula-espetáculo do autor pernambucano e shows marcaram a abertura; organizadores adiantaram que o poeta Wally Salomão será o homenageado da edição 2013

Para Yara Francisca, de 60 anos, moradora do morro da Fallet, em Santa Teresa, a abertura da 1ª edição da Festa Literária Internacional das UPPs (Flupp), nesta quarta-feira (7), foi um dia mais do que especial. Yara, que vive na favela desde que nasceu, tinha pela primeira vez um evento literário próximo de sua casa. Ela vibrava e aplaudia a apresentação da Orquestra de Vozes Meninos do Rio, composta por cerca de mil vozes de crianças de escolas públicas da cidade.
 - Está tudo muito bonito. Fiquei sabendo da festa quando vim pegar minha neta na escola. Estou adorando - contou ela que pretende participar de todos os dias do evento.
Junto a ela, mais de mil pessoas acompanharam o primeiro dia de atividades da Flupp, no Ginásio Experimental Olímpico, em Santa Teresa, entre alunos, professores, autoridades, como o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, e a secretária municipal da Educação, Claudia Costin, moradores da favela e escritores. 
Além do coral, que cantou os clássicos "Garota de Ipanema" e "Cidade Maravilhosa", a abertura contou também com uma aula-espetáculo do escritor pernambucano Ariano Suassuna e os shows de MV Bill e do rapper líbio MC Swat.
A expectativa é de que, até domingo, cerca de 10 mil pessoas circulem pelas tendas no Morro dos Prazeres, onde ocorrerão debates com autores e contação de histórias.
O clima da festa girava em torno de Lima Barreto, homenageado desta edição da Flupp, e que teve sua vida e sua obra relembrada pelo escritor João Paulo Cuenca. Durante a abertura, a professora da UFRJ e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda, uma das organizadoras da festa, afirmou que todos os presentes participavam de um dia histórico para a literatura brasileira. Ao longo do discurso, Heloísa deixou escapar o que parecia ser um segredo: o poeta Wally Salomão será o homenageado da edição do ano que vem.
- Este dia ficará marcado para sempre na história da literatura e da educação brasileira. A Flupp não é uma festa regional, está aberta para todos e integra a cidade inteira. De repente me bateu uma saudade do Wally Salomão, acho que ele gostaria muito de ver como está isso aqui. Vamos homenageá-lo no ano que vem - disse Heloísa, visivelmente emocionada, no palco do Ginásio.
Por volta das 19h30m, o escritor pernambucano Ariano Suassuna, atração mais aguardada da abertura, subiu ao palco. Suassuna apresentou uma versão reduzida da sua tradicional aula-espetáculo e divertiu o público no morro do Fallet. Logo no início, como costuma fazer, reclamou de sua 
- Minha voz é feia, rouca e fraca, mas espero que vocês gostem do que eu vou falar - brincou o escritor, que afirmou estar muito tocado por participar da festa literária. - Machado de Assis dividia o Brasil em dois: o real e o oficial. Esta festa é para o Brasil real.
Para uma plateia atenta aos seus causos, o autor de "Auto da Compadecida" (Agir) relembrou a história de cordel que o impulsionou a escrever a peça. Suassuna contou também um episódio em que um dramaturgo perguntou a ele se o fato de nomear os personagens com nomes sertanejos como João Grilo e Chicó não prejudicava a tradução do romance. De bate pronto, Suassuna respondeu:
- E eu lá vou me preocupar com a tradução dos meus romances? Eu escrevo em português e para o povo brasileiro. O resto não me preocupa - contou o autor, que arrancou aplausos da plateia ao explicar que o romance foi bastante traduzido e João Grilo virou "John Cricket" na tradução para o inglês.   
Os shows do escritor e músico Bráulio Tavares, e dos rappers MV Bill e do líbio MC Swat fecharam o primeiro dia da Flupp. Nesta quinta-feira, a programação começa cedo em novo endereço, na Tenda Policarpo Quaresma, no Morro dos Prazeres, com contação de histórias na parte da manhã e debates à tarde.

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